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Respeito, mentiras, e amor.

“Antes de mais nada, não minta para si mesmo. Aquele que mente para si mesmo e ouve sua própria mentira chega num ponto em que não consegue distinguir a verdade dentro de si, ou à sua volta, e dessa maneira perde  todo o respeito por si e pelos outros. E sem respeito, ele deixa de amar.”
Fyodor Dostoyevsky (Irmãos Karamazov)

Ontem participei de uma roda informal de gente de todo que é tipo de caminho falando de respeito.  Gente bruxa, gente pagã, gente heathen – um papo plural, como deve ser no meio Pagão. Um dos assuntos levantados foi a sempre onipresente fogueira de vaidades e as incongruências entre o discurso público e a vida privada.

Só a necessidade de se entabular uma conversa destas já serve de termômetro para o atual estado das coisas. Em um ambiente civilizado e maduro, não há o que se discutir sobre a seara alheia: cada um faz aquilo que acha melhor para si e seu coven, grupo, clã, o que seja. Só que quando meia dúzia de inseguros começa a assinar carteirinhas e diplomas e doutrinar seus seguidores a fiscalizar o culto alheio, temos um problema.

Vamos partir do pressuposto necessário para qualquer discussão e dizer que não fazem por mal. Que não há ali um iota de vaidade pequena, de projeto de poder, ou sequer de uma busca doentia pela popularidade fácil. Pelo bem do diálogo, vamos assumir que seja genuína a vontade de proteger os demais das “fraudes”e dos aproveitadores, gente pequena que usa a Bruxaria e o Paganismo para forrar suas camas de carne e de notas, e vestir seu espírito puído com a seda da adulação.

A forma empregada é condenável e acima de tudo, uma traição aos princípios não escritos de liberdade, verdade, e fraternidade que deveriam unir os Bruxos e Pagãos. Nós, que vivemos nas sombras de uma sociedade doente e repressora, pagando nossas contas com uma moeda cunhada com louvores a um Deus que não é nosso, vendo nossos escassos direitos sendo corroídos por filhos do crucificado, ainda temos que nos proteger daqueles que vestem nossas cores e professam os mesmos nomes sagrados – mas estão em nosso meio para segregar, roubar, e destruir.

Mas será que o caminho para isso é usar a forma do opressor? Vestir a hierarquia de roma, e registrar bruxos em listas de Schindler? Não é este o primeiro passo para a capitulação? Ao lutar contra os comerciantes que se apropriam das vestes de sacerdotes (e bruxos!), usar as armas pequenas da fofoca e da traição para dividir ainda mais nós que somos tão poucos?

Onde queremos chegar com isto tudo, é a pergunta que faço. Quando será o suficiente? Quando perdermos a pluralidade que nos faz tão grandes, e a liberdade que nos veste no esplendor dos Antigos Deuses? Quando provarmos quem está “certo – e quem está “errado”, o que restará nas ruínas fumegantes?

Ainda hoje, após esta roda de conversas, vi uma pessoa que doa seu tempo, sua saúde, e quase tudo que tem tocando um encontro no Rio de Janeiro por mais de dez anos cansada e porque não dizer, um pouco triste.  Parte da tristeza tenho certeza que vem de dar tudo que pode e ainda assim, estar diante de mais vaidades disfarçadas de discordância – onde deveríamos estar todos nós agradecendo por alguém que ainda tem fôlego e amor no coração para montar um evento que não seja financiado por lojinhas, iniciações e livros de qualidade duvidosa.

Cada um dá o que pode, e nos cabe exercer a maior das tradições pagãs, a da hospitalidade, com fartura e um sorriso sincero no rosto. Em uma casa onde recebemos nossos pares com amor, não há lugar para desculpas furadas, arrogância, e despreparo disfarçadas do “que se foda, eu já fiz muito”.  Quando é muito?

Eu exponho o muito: Quando se vê hóspede brigando com anfitrião. Quando se vê anfitrião desmaiado de cansaço. Quando se vê que aquela que deveria ser amparada envergonhada por ter dado tanto, mas tanto, aos seus convivas, que nada mais sobrou para si.

Respeitemos a Bruxaria, respeitemos o Paganismo, não como palcos, mas como casas maternas que são. Mais do que isso, respeitemos as pessoas que os professam e vivem, não pelos nomes pomposos que gostam de distribuir entre si, mas pelo seu trabalho e pelo que doam aos que precisam.

Sem respeito, nada se constrói.