Lúcifer – Tomando o archote emprestado

The picture. A great plain, comprising the entire Jerusalem district, where is the supreme Commander-in-Chief of the forces of good, Christ our Lord: another plain near Babylon, where Lucifer is, at the head of the enemy. – Ignatius of Loyola

Introdução

Há algum tempo, a figura mítica de Lúcifer vem caminhando ao meu lado. E garanto a vós, prezado leitor, que toda vez que uma figura mítica caminha ao nosso lado qualquer coisa que falemos sobre a inevitável reflexão causada pela presença de tal seres há de soar um bocado como um delírio esquizofrênico para uns, uma possessão demoníaca para outros ou simplesmente uma percepção direta de uma entidade, egrégora, forma-pensamento para os mais esclarecidos ou iluminados (trocadilho bávaro intencional) . Entendo que escrevo para aqueles que não são completos estranhos à bruxaria e a magia—assim sendo, reservo-me a indulgência de não debulhar os aspectos básicos de crença, subjetividade de percepção ou a existência de seres invisíveis. Outros melhores podem ter essa tarefa ingrata, eu prefiro optar pelo discurso informal, obrigado.

Claro, a hipótese da insanidade batendo às portas da consciência nunca pode ser completamente ignorada. Mas como não ando queimando dinheiro ainda, ou fazendo lápis desaparecerem (referência obrigatória a Batman—The Dark Knight e sua brilhante retratação da loucura), pretendo aqui descrever minha breve experiência com Lúcifer e as reflexões que ele tem gentilmente me proporcionado. E não pensem que a referência “pop” contida neste parágrafo ocorre de maneira impensada: Lúcifer, como o percebo, é um profundo simpatizante da raça humana, um humanista, como bem retratado no filme “Advogado do Diabo” – Afinal quem, senão um profundo conhecedor da raça humana, suas grandes falhas e pequenos triunfos, seria capaz de inspirar o seguinte diálogo:

“- Vou lhe dar uma pequena informação de bastidores sobre Deus. Deus gosta de assistir. É um gozador. Pense nisso. Ele dá instintos ao homem. Dá esse dom extraordinário e então o que Ele faz, juro, para seu próprio divertimento? Estabelece as regras em sentido contrário. É a ‘pegadinha’ do século. Olhe, mas não ponha a mão! Toque, mas não experimente! Prove, mas não engula! E, enquanto você fica pulando de um pé para o outro, o que ele faz? Fica rindo! Fica disfarçando, com se não tivesse nada a ver com isso. É um sádico! Venerar isso? NUNCA!”

Sua presença tem permeado aspectos inusitados de minha vida: Desde aparições inesperadas em quadrinhos alternativos até súbitas e inesperadas aparições na fé que escolhi. Como uma voz que não pode ser calada, um grito de rebelião ou a nota dissonante que se sobressai à filarmônica, a presença do portador do archote se faz tão notável que escrever sobre qualquer outra coisa é quase impossível. Assim sendo, escrevo sobre este nada tímido companheiro para que este possa me emprestar seu archote na minha busca por conhecimento e fé. E, quem sabe, parar de ter a impressão que tornei-me um “entrevista com o vampiro” suecado 1.

Lúcifer – Sob o dito “senso” comum

Lúcifer. O anjo caído, o senhor deste mundo, o senhor das trevas. Quase toda a ocidentalidade o conhece como um sinônimo para Satã e o Diabo. Tal visão é especialmente exaltada por cultos cristãos, sendo amplamente difundida entre as camadas menos esclarecidas de fiéis, em especial os carismáticos. No entanto, a realidade histórica é outra: Nada mais irônico que a base para o dito “príncipe das mentiras” tenha sido uma mentira nascida de um grotesco erro de tradução no século quarto depois de cristo, perpetrado por Eusebius Sophronius Hieronymus, também conhecido por “São Jerônimo de Stridon”.

Vejamos o livro de Isaías, Capítulo 14, Versículo 12 :

“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra tu que prostravas as nações!”

…e sua tradução para o latim vulgar:

“quomodo cecidisti de caelo lucifer qui mane oriebaris corruisti in terram qui vulnerabas gentes!”

Entre algumas versões da bíblia [2] , a estrela da manhã é chamada de Lúcifer, onde se popularizou tal nome no imaginário religioso popular. Vale lembrar que o nome em hebraico “Heilel Ben Shachar” pode ser livremente traduzido como “estrela da manhã”, sendo uma referência direta a deidade babilônica Shahar (“Deus do Amanhecer”, oriunda da região de Ugarit, de onde os hebreus “herdaram” seu deus El e o culto a Baal.

A confusão se amplifica ao se utilizar o mesmo homônimo do planeta Vênus, e se completa ao ser utilizado na tradução da bíblia para o latim vulgar em qualquer ponto onde “luz celeste brilhante” possa ser inserido [3] .

Sob uma interpretação um pouco mais coerente e antropológica, a mesma passagem pode ser interpretada, à luz do quarto versículo de Isaías como uma imagem poética para a queda do tirano da Babilônia, Nebuchadezzar, e não como uma conexão às passagens do novo testamento sobre o Diabo ou Satã [4] . Uma vez que tal confusão tenha ficado clara, cabe proceder ao ponto central: O mito de Lúcifer, ou melhor dizendo, o Portador da Luz [5] .

Sob uma ótica neo-pagã nos interessa o mito à semelhança do Prometeu e do Trapaceiro, e não o erro de tradução oriundo da ignorância tão característica dos cristãos, principalmente no que diz respeito à sua própria Teologia. Assim, ao trabalho!

O mito do portador da luz encontra reflexos em praticamente todas as mitologias: Mātariśvan [6] , A Avó –Aranha Cherokee, o coiote, o castor e o cachorro [7] , o coelho (para os Creeks e os Algoquins), Nanabozho [8] , Māui [9], entre outros. Dada a disparidade cultural entre os povos, prefiro examinar os arquétipos aos mitos propriamente ditos. E tal arquétipo, do trapaceiro que sempre vence e na sua vitória beneficia a humanidade, creio, é imortal.

Vejo o mito de Lúcifer ser composto por quatro faces principais. Vale lembrar que nessas faces, projetei entendimentos e vivências pessoais, não consultando nenhum tipo de cânon que não fosse o altar da minha experiência. Assim sendo, tomo a liberdade de apresentar as quatro faces do portador da luz embrulhadas em roupagens “surrupiadas” de outros mitos.

O Opositor:

O primeiro arquétipo que me vem à cabeça ao pensar em Lúcifer é a face do Opositor. Á semelhança de Seth, deus egípcio do caos, ele pode ser considerado de maneira metafísica “O atrito necessário para que se caminhe para frente”. Sem uma força opositora, dificilmente a vida e o crescimento seriam possíveis, sendo Lúcifer neste caso a versão mágicka [10] da terceira lei de Newton [11] . À semelhança dos kanjis chineses de crise/oportunidade, apesar de clichê, a oposição pode e deve ser encarada como a chance para se criar um ambiente de crescimento.

A luz do archote de Lúcifer, neste caso, mostra os obstáculos em nosso caminho que devam ser superados. Seja por meios ardilosos ou marciais, fica claro aquilo que está atrapalhando o caminho—e não se surpreenda se por acaso Lúcifer voltar o archote para dentro de si!

O Questionador:

A segunda face, decorrente da primeira, é a do questionador de auto proclamadas autoridades e de todo dogma ou verdade inquestionável que aceitemos por inércia. Da simples força opositora nasce a contextualização da oposição à uma figura pessoal, uma espécie de “desafiador” que se coloca como algo mais do que uma face reversa da personalidade do bruxo: Verdadeiramente se torna um misto de “sargento do exército”, primo sacana e irmão mais velho, comprometido com o seu aperfeiçoamento a qualquer custo, incluindo aí sua sanidade e sua vida como a conhece. O desafiador pode tomar várias faces: A do adolescente rebelde, do líder anarquista ou do irresistível enfrentamento pacífico [12].

O seu archote ilumina em especial nossa concepção de valores. Seus comentários estóicos destroem auto imagens e dogmas com a facilidade de um bastão esmagando um copo. Tudo aquilo que não nasce e cresce, tudo aquilo que não cria raízes dentro de nós é arrancado e esfregado em nossa faces, sendo incinerado na pira sacrificial do self.

O Trapaceiro

A terceira face, do trapaceiro propriamente dito, é um tanto quanto mais complexa: Lúcifer nesta forma é aquele “que nunca perde”, pois escolhe suas batalhas e conhece profundamente as regras do jogo que participa. O Lúcifer-Trapaceiro é aquele que ensina através de truques, surpresas e trapaças. Ainda que através de ilusões e mentiras, o princípio do crescimento pessoal é tão forte que mesmo ao pensar estar em uma direção, e descobrir-se enganado, um sorriso irá acompanhar às lições de Lúcifer: Estas raramente o deixarão onde queria, mas certamente o deixarão melhor do que antes.

O seu archote brilha nas trevas da ignorância através do humor que ensina lições profundas: Enquanto não formos capazes de empregar o sorriso tranquilo de um buda quando confrontados com todas as inadequações humanas, não à semelhança das hienas mas sim com a capacidade de se maravilhar de uma criança, “the joke will be on us”.

O Tentador

A quarta face se apresenta como uma velha conhecida da fé cristã: Lúcifer como aquele que tenta. Mais do que buscar a desvirtuação alheia, Lúcifer aqui realça aquilo que é importante, mostrando tudo aquilo que não é a sua vontade, ou melhor, Vontade. O tentador, ao apresentar as delícias do mundo, ajuda a colocar em ordem as descobertas do trapaceiro, pondo-as em perspectiva e em ordem de importância perante o resto do universo.

Seu archote se assemelha a uma régua, onde tudo é triangulado entre a Vontade dos deuses, a sua vontadee a vontade dos outros. O tentador é um navegador, onde a fé é a Nau e os deuses timoneiros.

Bibliografia

http://www.cresourcei.org/lucifer.html

http://en.wikipedia.org/wiki/M%C4%81ui_(M%C4%81ori_mythology)

http://www.sacred-texts.com/hin/rigveda/rv03009.htm

http://en.wikipedia.org/wiki/Prometheus#cite_note-13

http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%BAcifer

http://en.wikipedia.org/wiki/Ugarit

Notas:

[1] Neologismo criado pelo filme “Be kind rewind”, que consiste em criar uma reencenação de filmes de sucesso com baixíssimo orçamento.

[2] Versão King James

[3] Como por exemplo em Jó 11:17, Pedro 1:19

[4] Como por exemplo Revelações 12: 9-12 e Lucas 10:18

[5] “Lux Ferre”

[6] Rig Veda 3:9.5 “Him wandering at his own free will, Agni here hidden from our view, Him Mātariśvan brought to us from far away produced by friction, from the Gods.”

[7] Tema recorrente em tribos norte-americanas do Noroeste do Pacífico

[8] Mito Ojibwa, “O Grande Coelho”, o inventor da pescaria, o criador dos hieróglifos e o criador da Terra.

[9] Mito Maori

[10] A grafia escolhida segue a via thelêmica de separa a mágica de palco da mágicka

[11] Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi.

[12] Vide o exemplo de Mahatma Gandhi

3 thoughts on “Lúcifer – Tomando o archote emprestado”

  1. Preciso agradecer este texto de esclarecimento, é exatamente assim que vivo, obrigado por explicar de maneiras claras estes 4 tipos de formas, porque vejo TODAS .Eu achei que estava apenas esquizofrenico a beira de abandonar tudo que conquistei até agora sobre a verdade de Lúcifer. “Há algum tempo, a figura mítica de Lúcifer vem caminhando ao meu lado. E garanto a vós, prezado leitor, que toda vez que uma figura mítica caminha ao nosso lado qualquer coisa que falemos sobre a inevitável reflexão causada pela presença de tal seres há de soar um bocado como um delírio esquizofrênico” perfeito ESCLARECEDOR EXATAMENTE O QUE SINTO “Verdadeiramente se torna um misto de “sargento do exército”, primo sacana e irmão mais velho, comprometido com o seu aperfeiçoamento a qualquer custo, incluindo aí sua sanidade e sua vida como a conhece” apenas uma duvida ele pode se manifestar na televisão não é? agora sei que não sou louco , até porque na internet e televisão vejo mensagens dele ! Obrigado pelo texto

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