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O Pantáculo do iniciado

Se deseja saber como estão suas defesas, e auditar o seu caminho mágicko, podes utilizar uma técnica que chamo de pantáculo do iniciado (que original!) =)

  1. A primeira ponta é a Terra:
    Seu corpo é seu veículo. Como está a sua sobrevivência? Como você se alimenta? Há alguma desordem alimentar? Você se mantem hidratado? E seu sono?
  2. A segunda ponta é o fogo:
    Como está a sua integridade? Você se mantém em Segurança?. Você sofre ataques físicos, mentais, ou emocionais? Você é capaz de se defender?
  3. A terceira ponta é o Ar:
    Como andam seus relacionamentos? Como está a comunicação com os outros seres? Suas palavras são compreendidas da maneira que você deseja?
  4. A quarta ponta é a Água:
    Como anda sua auto estima? Você se sente amado? Socialmente aceito? Possui amizades? Seu relacionamento com a família, como é?
  5. A quinta ponta é o vazio:
    Como anda sua Vontade? Você se sente realizado em suas escolhas? Existe algo que você PRECISE e não tenha conseguido?

Do sacrifício de animais

O assunto da vez parece ser a pertinência ou não do sacrifício de animais na Bruxaria. Seguem meus dois centavos sobre o tema: SOMENTE minha opinião, não a verdade cósmica. Não falo por uma Tradição de 3585747892 seguidores, ou pela Bruxaria, mas pelo que se encontra em meu coração, ok?

Acho impensável alguém defender crueldade contra animais. É de uma vilania terrível. Temos mesmo que nos mobilizar de maneira consistente para lutar contra isso.

No entanto, parei para refletir com um pouco mais de atenção e vi uma série de inconsistências que me deixaram intrigado. Daí, procurei pesquisar o tema (infelizmente, de maneira breve) e decidi escrever minhas (primeiras) considerações:

1. Apesar do nome, abatedouro não é, para a legislação, um simples lugar onde se abate animais. Se fosse assim, cada dono de sítio e fazenda que não sejam agronegócio deveriam ser enquadrados no tipo penal (erroneamente) citado por aqueles que condenam o sacrifício de animais. Para ser considerado matadouro há a necessidade de posterior de revenda da carne.

2. A legislação federal, que data da época de Vargas, não proíbe o abate para consumo, mas “VI – Não dar morte rápida, livre de sofrimento prolongado, a todo animal cujo extermínio seja necessário para consumo ou não;” Não se deve interpretar a lei para beneficio próprio, nem ser mais severo que o legislador;

3. A presunção de não saber se a carne se encontra saudável é digna de consideração. No entanto, se todos os membros do rito forem maiores e consentirem, pergunto-me quem seriam as vítimas do ato atípico;

4. Quando se diz que a maioria define o que a Bruxaria é ou não, entramos aqui em terreno deveras perigoso. Se vamos adotar a regra da maioria para a definição do que é bruxaria, acredito que a Cristandade infelizmente há de ganhar e por conseguinte terei que colocar um Cramunhão no meu altar  Emoticon smile

5. Saúde publica como já diz o nome, é realmente do interesse de todos mesmo. Seguindo a exortação do “dedurismo” evocado nas mídias sociais, acho que deveríamos também denunciar quem não usa camisinha em rito sexual pro MP pelo mesmo motivo, tipificado no CP. E quem usa ervas em braseiros sem extintores por perto. Afinal, podem causar um incêndio. Seria interessante também denunciar o consumo de psicotrópicos em ritos xamânicos. O charlatanismo de outros tantos. O estelionato de outros. E por aí vai – só que tal postura fala mais da sanha de policiar o culto alheio do que proteger a saúde publica, uma vez que tal preocupação não parece se espelhar no hamburger ou picanha que comemos.

6. Alias, os abatedouros ditos LEGAIS são estes sim, um antro de crueldade. E comemos para viver. MAS Matar sem crueldade para comer e honrar os deuses não pode, deixar que matem com crueldade so pra comer pode. Não parece hipócrita e contraditório?

7. Os últimos que vi equivalerem o sacrifício de animais com crueldade animal (tamanha simplicidade na analogia só pode demonstrar rasas faculdades mentais ou má fé) foram os evangélicos, quando começaram a perseguir as religiões de matriz africana. Jamais esperaria isso daqueles que seguem o Paganismo.

8. A admissão de sacrifícios ou não na Bruxaria se dá por história, tradição, e prática, e não pelo imprimatur de um ou de outro. Seria salutar lembrar-se de seu lugar no mundo antes de outorgar-se procuração para falar em nome de toda uma fé, em hubris.

9. Se eu quisesse seguir exemplos do Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, e cristianismo, teria me convertido a estas fés. Sou Pagão, e sigo meus ancestrais.

É isso. espero que fique clara minha postura sobre o tema, e não sobre a pessoa de x ou y.

Kalamar Nur – O assunto da vez parece ser a pertinência ou não do…

Em defesa desta linha, um pouco de doutrina não faz mal:

CELSO ANTÔNIO PACHECO FIORILLO (Curso de direito ambiental brasileiro, p. 95, São Paulo: Saraiva, 1995)

“…resulta claro que, no aparente conflito entre o meio ambiente cultural e o meio ambiente natural, merecerá tutela a prática cultural – no caso, sacrifício de animais domésticos – que implique “identificação de valores de uma região ou população”. Bastaria, a meu ver, um único praticante de religião que reclame o sacrifício de animais para que a liberdade de culto, essencial a uma sociedade que se pretenda democrática e pluralista, já atue em seu benefício. Dir-se-á que nenhum direito fundamental se revela absoluto. Sim, mas o confronto acabou de ser revolvido através do princípio da proporcionalidade. Ao invés, dar-se-ia proteção absoluta ao meio ambiente natural proibindo, tout court, o sacrifício ritual.”

Paulo Lúcio Nogueira – : “A lei procura proteger os animais domésticos e os selvagens domesticáveis, excluindo apenas os daninhos. Entretanto, os próprios animais domésticos são mortos para satisfazer as necessidades humanas, não havendo em tais circunstâncias nenhuma infração, mas, mesmo assim, o animal deve ser morto de maneira que os meios empregados não lhe causem mais sofrimento do que os naturais. Se, para abater um animal, o homem, ao invés de o fazer com rapidez e naturalidade, procura submetê-lo a torturas desnecessárias, pode, perfeitamente, ser punido por agir com crueldade. (…) “Entende-se que a morte ministrada a animal, por si só, sendo rápida, não constitui crueldade”.

DES. JOSÉ ANTÔNIO HIRT PREISS ” Quando freqüentador das ditas e chamadas casas de religião, das quais de uma eu fui dirigente, nunca vi alguém sacrificar um animal com crueldade. A morte é limpa e rápida.
Não existe esta de ecologista de final de semana dizer que em casa de religião se pratica crueldade contra animais. ”

Metus

There are two basic motivating forces: fear and love. When we are afraid, we pull back from life. When we are in love, we open to all that life has to offer with passion, excitement, and acceptance. We need to learn to love ourselves first, in all our glory and our imperfections. If we cannot love ourselves, we cannot fully open to our ability to love others or our potential to create. Evolution and all hopes for a better world rest in the fearlessness and open-hearted vision of people who embrace life.”
― John Lennon

Muitos são os motivos para temer os fatos que a vida despeja em nossos caminhos. A ansiedade, o medo, o pânico afligem os homens e mulheres em seus caminhos, e estes cada vez menos se encontram preparados para se encontrar com a progênie de Ares. Esses filhos tão temidos frequentemente se disfarçam de coisas belas: Um primeiro emprego, uma paixão ou a liberdade. Em alguns momentos, mostram uma face bem mais horrenda que a sua natureza: A perda de algo ou alguém querido ou o vazio que sentimos dentro de nós ao perceber as mentiras que contamos para nós mesmos.  Qual a sua verdadeira face?

Nelson Mandela uma vez disse que a coragem não é a ausência de medo, mas sim o triunfo sobre o medo.  Acredito que um homem que lutou contra a ignorância e a tirania de todo um governo é mais do que habilitado para falar do medo que sentiu – e em sua frase temos o segredo da nossa luta contra o medo: Não iremos aniquilá-lo, mas apenas triunfar sobre ele. E para triunfar, não é necessário conhecer sua verdadeira face, mas sim se manter longe de seus braços e pernas.

O triunfo pode se dar de várias maneiras: podemos vencer pelo cansaço, pela compaixão, por argúcia ou até por nos unirmos com o inimigo. No entanto, alguns pontos jamais mudam na estratégia de conter e vencer o medo:

1) Seja pequeno. Seus medos serão tão grandes quanto a importância que você dá àquilo que ACHA que você é.

2)Tenha fé. O Medo pode lançar dúvidas em sua mente, mas jamais poderá roubar sua fé de você – e a fé não conhece barreiras e é amiga da confiança e irmã da esperança. Em boa companhia, não importa o tamanho do medo.

3) Planeje.  Escreva sobre seu medo. Dê-lhe forma e aparência. Veja como ele caminha e em que direção caminha – e vá para o lado oposto!

4) Aceite que os Deuses tem um plano para tudo e para todos.  Se abrimos mão de nossas limitações e aceitamos o que  mundo nos impõe, veremos que o que deixamos para trás é muito pequeno perto do que o mundo e a estrada reservam para nós.

Então, vamos caminhar?

Do agradecimento mais básico

Um hábito que busco repetir todas as manhãs ao acordar é agradecer aos Deuses Antigos pelo dom da vida, e me ser permitido mais um dia neste planeta. Para minha surpresa, através de uma mensagem de natal de um amigo, descobri que essa gratidão foi uma constante na vida do fundador do Aikido, arte que pratico há alguns anos e possuo grande admiração.

Um autor que fala muito bem dessa gratidão e seus desdobrares é John Stevens, em seu “A filosofia do Aikido“:

1- Gratidão para com o Universo;
Essa é a gratidão pelo dom da vida, um modo de ser muito precioso e difícil de se alcançar. De acordo com as crenças budistas, a possibilidade de uma alma que transmigra achar uma vida humana é a mesma de uma tartaruga cega no grande oceano, que vem à superfície uma vez a cada cem anos, enfiar sua cabeça num buraco de um tronco de madeira que esteja passando no momento em que ela vier à superfície do mar.
E, mesmo que os deuses tenham maiores chances, sua fácil existência coloca-os num estado de torpor, e somente os seres humanos podem torna-se Buda – precisa-se de um corpo para se sentir a dor de Samsara, praticar o Dharma e experimentar o Nirvana. A Gratidão por se estar vivo é supremamente importante, porque nos dá esperança. Como dizia o Mestre Ueshiba:
Santos e sábios sempre reverenciaram o que há de sagrado no céu, na terra, nas montanhas, rios, árvores e campos. Sempre existiu a consciência das grandes bençãos d natureza. Eles entenderam que é o propósito da vida tornar o mundo continuamente novo, fazer de cada dia um novo dia. Se você entende os princípios do Aikido você também agradecerá por estar vivo, e receberá cada dia como grande alegria.
 
Quando você reverencia o Universo, ele o reverencia de volta.
Quando você chama pelo nome de Deus, ele ecoa dentro de você.
(grifo meu)

 

Por isso o Caminheiro, antes de se preocupar em compreender a face visível do Universo, deve aprender a sentir gratidão pelos semelhantes através das sandálias da compaixão. Para que possa falar com a voz dos Deuses, deve saber escutar e compreender a própria voz.

 Um escritor índio Assinibon descreveu desta maneira o ritual de gratidão particular de seu avô:
Ele nunca deixou de agradecer de manhã cedo ao sol nascente.
Ele chamava o Sol de Olho do grande Espírito. Ao meio-dia, ele parava por alguns segundos para agradecer e ser abençoado. Quando o Sol se punha, ele o observava em reverência até ele desaparecer.

Tal rito, que guarda uma semelhança interessante  com o  Liber CC – Resh vel Helios thelêmico, e é também semelhante ao ritual que utilizamos durante o dia para saudar o portador da luz, permite ao Caminheiro comungar com uma fonte inesgotável de energia, além de ser um excelente auxílio no desenvolvimento da disciplina.

2 – Gratidão para com nossos ancestrais e predecessores;

 Isso significa ser grato para com as matriarcas e os patriarcas do nosso clã [família] particular, e para com todos os grandes líderes, professores, inovadores, artistas e exploradores que vieram antes de nós e criaram a cultura humana. Mesmo se nossos pais foram contra ou obstruírem nossos caminhos em nossa busca, ainda assim nós devemos agradecê-los pela dádiva do nosso corpo físico.

E isto também é a chama vermelha que habita cada altar de cada Caminheiro de Hy Brazil. Cada um de nós nasceu de um ato de amor, e só por isso devemos ser gratos aos que trilharam os caminhos antes de nós.

3 – Gratidão para com o próximo;

 Não podemos viver sem a ajuda de outras pessoas. Pessoas que constroem casas, cidades e estradas; pessoas que fazem as coisas funcionarem ; pessoas que cultivam e preparam a nossa comida; pessoas que pagam nossos salários; pessoas que amam, criam e nos apóiam ; pessoas com quem brincamos e treinamos. Mestre Ueshiba disse uma vez aos seus alunos:
Na verdade – eu não tenho alunos – vocês são meus amigos, e eu aprendo com vocês. Devido ao seu treinamento vigoroso, eu cheguei até onde me encontro hoje. Serei sempre grato pelos seus esforços e cooperação. Por definição, Aikido significa cooperar com todos, cooperando com os deuses e deusas de cada religião.

Para aqueles que caminham conosco, não é necessário entrar em detalhes sobre a frase de O-Sensei. Para aqueles que caminham o bom caminho, mas não caminham conosco, fala de fraternidade e humildade no caminho religioso, algo que grande parte dos Pagãos esquece.

4 – Gratidão para com as plantas e animais que sacrificam sua vidas por nós.
Nós existimos às custas de outros serem, no reino vegetal e animal, e devemos ser gratos por cada bocado de comida que comemos.
Em tempos passados, os índios norte-americanos caçadores nunca se esqueciam de agradecer aos animais que generosamente se deixavam matar.
Eles [os índios] se referiam às suas presas como ”amigos”, e se dirigiam a elas respeitosamente.

O preço da Vida é morte. Para sustentar cada chance, desperdiçada ou não, destruímos as possibilidades de uma planta ou animal. Por isso, a inação é o pior dos passos, e um imenso desrespeito para com aqueles que foram sacrificados por mais um dia.

Gratidão é um antídoto poderosos contra o ressentimento que sentimos em relação aos outros e pelo mau temperamento que possuímos por guardarmos rancor. (Buda definiu uma pessoa fraca como ”alguém que não é grato e que, em sua própria mente, não tem noção de tudo de bom que lhe é proporcionado”). Pessoas agradecidas evitam a autopiedade e relutam em reclamar sobre o tamanho de seu fardo na vida. Outro aspecto da gratidão é o respeito.

Em especial, gostaria de chamar a atenção para a força da gratidão contra o ciúme, a mesquinhez, a infantilidade tão comum em nossos dias, que acorrenta homens e mulheres maduras em corações adolescentes.

Você já agradeceu aos seus deuses por hoje?

Das prioridades

As ações expressam as prioridades – Mohandas Gandhi

Quão fácil nesta época é abrir a boca e prometer. Prometer com a facilidade de beber um café ou comer um pão com manteiga. Prometer, sem se perder um segundo para se avaliar a própria capacidade em cumprir o dito. Talvez Maquiavel se divertisse com o triunfo de sua doutrina, que é tão bem expressa ao se dizer que “a promessa é a necessidade do passado e deve ser quebrada perante a necessidade do presente”.

A palavra erodida e eivada de veneno é incompatível com os homens e mulheres que, sendo instrumentos dos Deuses, emprestam seus pés, mãos, coração, boca e espírito para que sua obra seja feita. Especialmente quando tal palavra é voltada a compromissos feitos com os próprios Deuses.

Não porque tais Deuses espelhem a bipolaridade mesquinha e ciumenta tão comum às deidades semíticas – os Deuses não se incomodam com a humanice praticada por seres humanos – mas quem se fere e adoece, neste caso, são os próprios homens e mulheres.

O senso de prioridade, já diz o nome, é tudo aquilo que se coloca em primeiro lugar. E não existem “vários primeiros lugares” – o valor é absoluto.

Não há de se julgar aqui, nunca, o valor que cada caminheiro dá ao percorrer do caminho. É tolice sem tamanho deitar-se sobre o subjetivo e o imaterial e querer sopesar tais valores como quem mensura um quilo de arroz. No entanto, deve-se lembrar que embora cada caminheiro tenha seu passo e seu tempo, o apreciar do caminho e a alegria de chegar ao final, ele deva sempre colocar o caminho em primeiro lugar.

E não é com mentiras, covardia, ou preguiça que se caminha.

Tradição Caminheiros de Hy Brazil

Há muito tempo atrás, em uma terra nada distante, mas oculta aos olhos dos homens, havia uma ilha abençoada. Nesta ilha um casal de sacerdotes e seus Dragões se ocupavam de guardar um culto aos Deuses Antigos e curar aqueles que chegavam mais mortos do que vivos àquela ilha, e ensinar o caminho dos Antigos Deuses aos que sobreviviam ao processo de cura.

Naquela ilha, dentro do círculo de pedras, todos eram irmãos, e todos tinham uma ocupação. Caminhavam ao lado de Fadas, Elementais, Ancestrais, Heróis, Deuses e Semi Deuses. Sem pretensão o inexplicável e o impossível eram feitos, e a mão da maior de todas as Deusas fazia-se sentir na vida de todos que lá estavam.

Até que um dia, seja pelo desígnio dos Deuses (como contam uns) ou por um ato de profunda vilania (como querem outros) as brumas fecharam-se sobre tal ilha. Alguns se foram deste mundo com o caminho para tal ilha; outros saíram de lá com pequenos alforjes e capas escuras como a noite em direção a caminhos que só eles viram.

Neste caminho, um casal de sacerdotes desta ilha pisou na terra de Gaia, onde viram grandes belezas e terríveis verdades. Nesta terra, embora os Antigos Deuses caminhassem ao lado dos homens, estes não os ouviam. Estes eram liderados por mercadores que se travestiam de sacerdotes; por ovelhas que se fantasiavam de lobos, dragões e todo tipo de criatura. Alimentavam os filhos dos Deuses antigos com esterco e tripas e isto era vendido como ambrosia.

Em toda parte havia se esquecido do riso dos Deuses e de seus ensinamentos. E entre aqueles que ainda se ocupavam do culto dos Deuses, brigavam como crianças, por lugares que não lhes pertenciam ou por vidas que não eram as suas. Por aqui e acolá, crianças dos Deuses perdidas buscavam conhecê-los sem que os sacerdotes experientes lhes dessem atenção.

Este casal de sacerdotes, ao ver tudo isto fez o que sempre fazia nestes casos. Voltou-se ao céu estrelado que é uma das faces de sua mãe, e ao perguntar sobre o caminho que deveriam tomar, viram e ouviram algo que imbuiu seus espíritos de força e alegria. Foi-lhes oferecido a chance de trabalhar pelos filhos dos Deuses, em confiança e humildade, caminhando ao lado dos que se encontravam nos caminhos do mundo.

A casa em que tantos se abrigam não possui paredes para que sejam derrubadas ou teto menor que a abóbada celeste. Possui comida e bebida que nunca se esgota, para aqueles que detém as chaves da cozinha; risada e alegria em todos os seus salões. A casa, que fica sobre a terra mítica de Hy-Brazil, possui suas portas permanentemente abertas aos que buscam os Antigos Deuses com o coração leve e os olhos atentos.

Essa é a Tradição Caminheiros de Hy Brazil; somos uma tradição Pagã, que cultua os Antigos Deuses, estruturada como escola de mistérios e que deseja apenas reunir homens e mulheres que queiram vivenciar o Paganismo como alternativa religiosa, sem que isto seja sinônimo de qualquer outra coisa que não seja religião, alegria e evolução. Não somos vegetarianos, não somos ambientalistas, feministas etc. Somos Pagãos em primeiro lugar; todo o resto são escolhas pessoais que nada tem a ver com nosso culto.

Aprendemos a caminhar o caminho que nos foi legado em alegria e sabedoria; não acreditamos em um Paganismo em que os únicos valores sejam mensurados em Reais – para isto existem outros caminhos inúmeros. Acreditamos que os Antigos Deuses nos legaram um belo caminho, a ser desfrutado entre família e amigos; acreditamos que o Pagão não deva ser refém dos medos e do desconhecimento da sociedade capitaneada pelas fés abraâmicas. Acreditamos em valores religiosos que trabalhem em prol da humanidade, e não contra a mesma. Acreditamos que a religião não precisa ser sinônimo de ignorância e fanaticismo.

Esta é nossa Tradição.

Religiões de Mistérios

As religiões de mistérios têm sua origem perdida no tempo. Parte disto deve-se ao seu caráter secreto que gera dificuldade em localizar e identificar vestígios de seus cultos, outra parte deve-se à dificuldade de interpretação desses vestígios quando encontrados, decorrência da pouca literatura que os seus praticantes nos legaram.

Sabemos por diferentes fontes que o crescimento dos cultos de mistérios não se relaciona com os cultos egípcios clássicos e sim com um fenômeno ocorrido no período helenístico[i] que primou pela intensa mistificação e sincretismo entre cultos e mitos de origem oriental (cultos persas, frígios, babilônicos, egípcios) e cultos mediterrâneos (etruscos e gregos sobretudo).

Diversos cultos surgiram por toda a Europa mediterrânea e Ásia menor mantendo entre eles diferenciações litúrgicas, cosmológicas, cosmogônicas e simbólicas, tendo em comum uma grande capacidade sincrética e de ressignificação de símbolos e práticas ainda mais antigas, muitas vezes tidas como “primitivas”, todos eles defendendo a imemorial antiguidade de seu culto, mesmo aqueles que na prática haviam sido recém criados[ii]

Se nos mistérios mais antigos, como os de Elêusis as iniciações só podiam ser feitas numa determinada época do ano e no templo específico, os novos mistérios podiam ser celebrados em qualquer lugar, a qualquer época, sendo possível iniciações em qualquer momento e ensinamentos em qualquer local disponível.

Neste período de explosão dos cultos foi introduzida uma idéia nova, a idéia de salvação, ou soterologia. A soterologia por sua vez foi conseqüência de uma outra idéia que ganha força nessa época, a idéia de uma escatologia.

Dispensável dizer em qual sociedade o pensamento escatológico se originou. Faça-se a leitura dos capítulos 40 a 55 do Livro de Isaías[iii], na Bíblia. Estes capítulos constituem uma obra à parte conhecida como Dêutero-Isaías e foi redigido nos últimos anos do Exílio Hebreu na Babilônia.

Nesse mesmo período surge o fatalismo astrológico. Até então as idéias astrológicas de correspondência micromacrocósmicas (que surgiram na babilônia) apenas indicavam uma solidariedade entre os homens e as estrelas, uma relação harmônica entre os movimentos de uns e dos outros. Com o crescimento dos cultos de salvação o homem começou a entender os movimentos do céu como fatores determinantes da sua própria vida, condicionantes irrefutáveis do que lhe ia acontecer do início ao fim.[iv]

Ainda que as religiões de mistérios não tenham, até o surgimento das seitas gnósticas, aceitado a idéia do messias que os hebreus desenvolveram para elucidar sua relação com a escatologia, os cultos do período helenístico absorveram a idéia de salvação.

A “salvação” prometida pelos cultos de mistérios estava relacionada com outro aspecto, ela era salvação contra Túkhe (A Sorte, ou Fortuna para os Romanos) que se manifestava como anágkê (necessidade) ou heimarménê (destino, Fata para os romanos), que agia segundo seu próprios caprichos sem distinções morais. O Iniciado nos mistérios se libertava dos condicionantes astrológicos, cósmicos e não estaria mais à mercê da Fortuna, sendo capaz de conduzir seus caminhos de forma mais consciente e autônoma.

Em outras palavras o iniciado passava a ser responsável pelo seu próprio caminho, pelas suas escolhas, libertando-se do Destino e da Fortuna para construir o seu próprio. Tornava-se o que hoje chamamos metaforicamente de “desperto”.

Poucas coisas os estudiosos científicos admitem poder afirmar com segurança sobre os cultos mistéricos:

“Sabemos que o postulante se comprometia por juramento a guardar segredo sobre tudo o que veria e ouviria durante as cerimônias. Aprendia, em seguida, a história sagrada (o hiéros logos) que narrava o mito da origem do culto.       Provavelmente, o mito já era conhecido pelo neófito, mas era-lhe comunicada uma nova interpretação, esotérica; isso equivalia à revelação do verdadeiro sentido do drama divino. A iniciação era precedida de um período de jejum e maceração, depois do qual o noviço era purificado por banhos e lustrações.      (…) De uma forma que não foi esclarecida o neófito participava ritualmente de um argumento litúrgico articulado em torno da morte e da ressurreição (ou do renascimento) da divindade. Em suma, a iniciação realizava uma espécie de imitatio dei. A Maioria das indicações fragmentárias de que dispomos refere-se à morte e à ressurreição simbólica do postulante.”[v]

A crença em divindades que de alguma forma conheciam os mistérios da morte e da ressurreição as aproximava dos homens e indicava os caminhos para que os homens pudessem  também “vencer a morte”.

A morte era uma representação do esquecimento, não o esquecimento representado pela memória, mas o esquecimento das questões fundamentais, aquelas que todo homem trazia dentro de si e precisava apenas relembrar.[vi] Era comum aos Mistérios a associação entre o sono e a morte, representados respectiva e classicamente como os deuses gêmeos Hypnos e Thanatos. Sendo a morte e o sono irmãos gêmeos, fica clara a associação entre os esquecimento e a idéia de “adormecido”, usada até a contemporaneidade por correntes místicas variadas para designar os não-iniciados.

Os Iniciados eram os despertos que venceram a morte e o esquecimento, passando a lembrar/saber o verdadeiro sentido das coisas enquanto os demais eram adormecidos, mortos, que viviam à mercê da Fortuna, sem ter nenhum poder sobre o próprio destino.

O fato de  ser iniciado em uma sociedade de mistérios não impedia a iniciação em outras sociedades secretas. Proliferaram  então diversos cultos, quase todos orientais: Cibele e Átis (Frígia), Ísis e Osíris (Egito), Adônis (Fenícia), Mithra (Irã/Pérsia). A única exceção originária do próprio ocidente era o culto de Dionísio, o mais popular durante a época helenístico-romana.

É flagrante percebermos as semelhanças entre a estrutura dos cultos de mistérios da Antiguidade e as tradições wiccanianas  modernas. De forma bastante notável, mantendo estruturas e derivando suas liturgias e simbolismos, estamos hoje contruindo novamente estes cultos de inspiração milenar, que são absolutamente modernos em sua criação. Cultos que precisam de nosso carinho e compreensão hoje para  que possam florescer e frutificar em força e fé até os filhos de nossos filhos e além.

BIBLIOGRAFIA:

ELIADE, Mircea. Sincretismo e Criatividade na época Helenística: A promessa da Salvação. In:  História das crenças e das Idéias Religiosas. Tomo II – De Gautama Buda ao Triunfo do Cristianismo, Vol.2 – Das Provações do judaísmo ao Crepúsculo dos Deuses.pp.42-71. Rio de Janeiro, 1979, Zahar Editores.

______________Escatologia e Cosmogania. In: Mito e realidade. pp.53-70 São Paulo, 2002, perspectiva.


[i] Período que inicia com as conquistas de Alexandre, o Grande, e vai até a dominação romana. Alexandre foi o maior responsável por disseminar a cultura grega (helenística) aos povos que conquistou, especialmente através da filosofia e do sincretismo de deuses locais com o panteão olímpico. Após sua morte a unidade de seu Império sucumbiu formando vários reinos na europa e oriente, com monarquias que comungavam do substrato cultural por ele legado. A esses diversos reinos chamamos reinos helenísitcos, ou monarquias helenísticas. O Exemplo mais famoso é o Egito Helenístico, governado pela dinastia helenística dos Ptolomeus, por isso também chamado Egito Ptolomaico, que nos legou Cleópatra e o alfabeto copta.

[ii] Impossível não associar esta constatação com o comportamento dos europeus dos séculos XIX e início do XX, aqueles fundadores das correntes da chamada Revolução Martinista de onde são oriundos Maçons, Rosacruzes, Neodruidas, Kardecistas, Teosofia, Ordens herméticas como a GD e OTO e o próprio Gardner.  Alegar a antiguidade milenar de um culto ou ordem parece ser um comportamento arquetípico do homem (ver a obra de Jung sobre simbolismo) desde a antiguidade.

Na prática os cultos mistéricos fizeram uma reinterpretação de práticas reminsecentes do paleolítico e neolítico, bem como de cultos anteriores à ordenação racional do culto estatal grego, passando adiante conhecimentos populares que derivavam destes conhecimentos ancestrais. Exatamente o mesmo processo que fizeram os “místicos-ocultistas’ do século XIX e que fazemos nós, os wiccanianos e praticantes neopagãos do século XXI. Isso não exclui a criação de novas práticas e a adequação delas a contemporanidade.

Hoje a alegação de “antiguidade milenar” é vista com desconfiança  por não ser mais uma necessidade diante do contexto mundial. Praticantes sérios de neopaganismo sabem que suas práticas tem validade mesmo assumindo a juventude recente de sua criação.

Em oposição a este comportamento existem as correntes reconstrucionistas que desejam praticar os antigos cultos de seus ancestrais espirituais da forma mais aproximada possível ao que era praticado in loco.

[iii] O Dêutero-Isaías (segundo Isaías) é onde pela primeira vez surge um texto organizado com a idéia da ruptura radical da realidade. É também o mais radical afirmador do monoteísmo hebreu. Se antes os profetas hebreus acreditavam que a nova era viria com o arrependimento sincero do povo e sua volta aos principios morais que Javé havia prescrito, o segundo isaías apresenta a inauguração da “Nova Época” como uma história dramática, que comporta uma série de atos prodigiosos, a destruição do conhecido e sua reordenação pela mão divina em si. Só o Apocalipse de João conseguirá se aproximar da profundidade com que o assunto foi abordado em Isaías sem, contudo, inovar no tratamento do tema.

[iv] Os estóicos se dedicaram a corrigir o amoralismo astrológico, interpretavam o Destino como Providência que leva em conta a moral. A mesma providência que criara os planetas regia as ações humanas em harmonia. Por outro lado, graças aos babilônicos e seus calculos astronomicos o mundo passou a ser dividido em períodos e crises regidos por planetas. Esta nova cosmovisão contribuiu inclusive para o surgimento da escatologia hebraica. (ELIADE, 1979, p.43s)

[v] ELIADE, 1979, p.45

[vi] Não é à toa que Platão, um iniciado dos mistérios, participante da corrente Pitagórica, “rouba” para a filosofia nas palavaras de Sócrates a doutrina do mundo das idéias, segundo o qual todo homem “sabe” tudo aquilo que necessita saber, bastando somente relembrar adequadamente.

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