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A Divinis Draco

Por estes dias, uma mulher perguntou o porquê da minha opção em utilizar o termo “dracônico” ao qualificar tudo aquilo que possua relações de afinidade e pertença aos Dragões.

Antes de mais nada, é necessário esclarecer que não considero o uso ou escolha de palavras pouca coisa. Se o universo foi criado por uma canção, e o nome é o primeiro passo para conhecer, as palavras possuem uma magia própria que deve sempre ser respeitada.

Quando se propõe uma escrita diferente para um termo, trata-se de um trabalho quintessencialmente mágicko, de alteração de egrégora, indo muito alem de mera adequação à esta ou aquela filosofia ou regra culta de linguagem.

Algumas vezes esta alteração é virtuosa, e em outras visa fracionar e subverter tais egrégoras a fins mais humanos que divinos, tentando encaixar uma falange celeste em visões por demais limitadas e humanas. O resultado geralmente é um aborto que pouco guarda em comum com o nomeado original, mas isso dever ser avaliado e descoberto por cada um ao seu devido tempo.

Vamos às possíveis origens da palavra:

drákōn (δράκων)

A palavra grega vem do genitivo drakontos, que remete a serpentes e guarda relação com o vocábulo derkesthai – δέρκομαι  (“ver de maneira clara”).

É também citada como origem grega o nome próprio do arconte e legislador (Drácon ou Δράκων) que em 621 A.C condenava à morte criminosos culpados de roubos e assassinatos. Devido à severidade deste legislador, a palavra chegou aos tempos modernos como sinônimo de desumano, excessivamente rígido ou drástico.

Vamos analisar com um olhar diferente esses sinônimos:

  • Para aqueles que já tiveram a chance de trabalhar com Dragões, verão que caracterizá-los como “desumanos”, no sentido de não possuir ou expressar características humanas, não é exatamente um erro.
  • Quanto à rigidez, faço a comparação com um atleta profissional: para nós sua rotina de exercícios e alimentação seria rígida, mas para ele é apenas o necessário para que possa atingir os seus fins. Quando falamos de sua “moral”, vindos de uma sociedade cheia de torpitude como a nossa, parece um tanto óbvio que chama-los de rígidos é praticamente um elogio.
  • Por fim: drástico: de propriedades eficazes. É, corretíssimo 🙂

Pessoas “sensíveis” parecem ser incapazes de resignificar um termo com características de desumanidade, rigidez, e etc.  Para estes, talvez o caminho Draconiano não sirva, uma vez que parecem se preocupar mais com a aparência do que com a essência. Um Dragão não deve nunca se sujeitar a maré da doxa humana.

À guisa de expandir as possíveis origens do vocábulo, seguem algumas palavras:

draconem

A palavra latina vem do nominativo draco, que significa “grande serpente”.

Draca

Inglês arcaico para “grande serpente”ou “monstro marinho”

Estrelas (Constelação de Draco)

Dragao_UrsaMenor_img[1]

Constelação vista do hemisfério norte, circumpolar. De acordo com este site:

Existem algumas lendas antigas relacionadas com esta personagem, sendo associada a vários dragões diferentes presentes em mitos gregos, por vezes identificando até exatamente o mesmo monstro em diferentes contextos; estas contradições explicam-se devido ao facto de estas lendas terem origem em autores clássicos distintos que, de forma independente, se dedicaram a explicar a presença da personagem no céu.
   A mais conhecida de todas é a que refere ser este o dragão que guardava as maçãs de ouro do Jardim das Hespérides, num dos episódios dos 12 trabalhos de Hércules. O herói mítico conseguiu matar (ou, noutras versões, adormecer) o dragão e colher as maçãs, tendo a deusa Hera colocado então a imagem do monstro no céu.
   Outra lenda grega conta que este seria o Dragão da Cólquida, morto por Jasão para que o herói mítico conseguisse obter o Velo de Ouro. Um mito menos conhecido, de entre ainda muitos outros, conta que este teria sido o monstro morto por outro herói mítico grego, Cadmo, fundador da cidade de Tebas, para conseguir alcançar uma fonte num bosque sagrado guardado por um dragão.
Como podem perceber, todas estas lendas apresentam outra característica essencial do Espírito Dracônico: A guarda daquilo que é sagrado aos Deuses.
Ainda, para os antigos Babilônicos, a estrela norte era Thuban (por volta de 2.700 AC), que era também chamada de “cabeça de Tiamat”. Para os egípcios, essa estrela, usada como referencial na construção de algumas pirâmides, era chamada de imortal ou imperecivel.
Conclusão
Por todos estes motivos eu prefiro a grafia Dracônico. Lembra com propriedade todos os valores que busco atingir e ao mesmo tempo me lembra que o caminho de um Dragão nunca deve ser orientado pela busca da popularidade.

Sobre Natal e Paganismo

Em minhas caminhadas sobre Gaia, nunca escondi o apreço pelos meus tantos professores, em especiais os que foram capazes de mudar minha forma de pensar e de me relacionar com o mundo. Na seara do Budo, um antigo Sensei mostrou-me que apenas reagir ao ambiente à sua volta é muito ruim.

Explico: quando se apenas reage, o outro pauta o seu ritmo e a sua percepção do mundo à sua volta, inclusive de ataques ou pretensos ataques. O ideal é movimentar-se pelo mundo relaxado, com a mente em zanshin e a percepção aguçada, sem interpretar o que vê.

Isso (zanshin) é exatamente o que não tenho visto no último capítulo do burburinho Pagão, ao ler todas as respostas a um post que dizia que a tolerância não podia ser de mão única, em especial no que tange a comemoração de feriados religiosos como o Natal. Vamos aproveitar o convite ao debate e expandir a questão que merece ser examinada.

1. Estamos falando da opinião de um indivíduo que deixa muito clara a importância que dá a si próprio e suas próprias palavras, em especial pelos seus atos (quem não se lembra das diversas vezes que o mesmo se colocou como representante da Bruxaria e Wicca tupiniquim?). Lembremos que com todo o holofote e purpurina que o mesmo gosta de despejar sobre si, tudo que ele fez foi externalizar sua opinião, fato salutar e ilustrativo para todos. Discutamos a opinião, não a pessoa.

2. Tolerância não se pratica como moeda de troca, da mesma maneira que a caridade. Sei que isso é de difícil aceitação por alguns, mas a prática da tolerância engrandece o praticante, a despeito de ser uma via de mão dupla ou não. Condicionar a prática da tolerância na própria família a uma retribuição é uma postura pequena, ávara, e egoísta. Infelizmente essa postura é tudo que alguns tem, e devemos respeitar os limites de cada um.

3. Tolerância é uma escolha: Não se trata de obrigação ou cânon religioso. Aquele que aceita um convite para partilhar a comida de um festival religioso apenas para aproveitar o convívio dos entes queridos não é mais ou menos Pagão que qualquer outro, uma vez que somente aos Deuses Antigos é dado conhecer o íntimo de cada um.

4. Talvez o que o malfadado autor do infeliz comentário tenha querido dizer é que o Pagão que precisa, ou celebra o mistério do aniversário do Nazareno, não é Pagão. Neste caso, sou obrigado a concordar que aquele que encontra em seu coração espaço para Iesus não é um filho dos Antigos Deuses, e possivelmente tem problemas cognitivos de grave monta.

5. De qualquer maneira, voltando ao conceito de zanshin, deixar que a opinião de um tolo paute as ações ou reações de qualquer um é um imenso desperdício de energia. Há de se compreender o ego machucado que exige popularidade e buzz como muletas para a fratura da auto estima, sem se permitir ser arrastado para esse foco de pestilência de bate-boca em redes sociais.

6. Concluindo: um tolo provavelmente irá espumar pela boca e ordenar que o siga, mas suas opiniões só terão poder sobre os que decidem seguir os seus passos. Deixemos o caminho dos tolos e dos sábios a cada um, e cuidemos dos nossos, sem se arvorar porque um ou outro se dão o direito de conferir diplomas de Paganismo aos seus asseclas.

Em sorrisos e tolerância,

Kalamar Nur

Bruxaria Banguela

Uma das coisas que sempre me divertiu horrores no dogma Wiccano é a expressão:

“Eight words the Wiccan Rede fulfill, An it harm none do what ye will”

Quando comento que tal dogma me enche de bom humor e gargalhadas, não me refiro somente à má poesia causada pelo estertor de forçar rimas. Também, entre um riso de canto de boca e outro, não em refiro à tentativa de submeter o motto principal de Thelema a um imperativo moral subjetivo e maniqueísta.

A fonte de inescapável diversão é buscar uma opção primordial como a Bruxaria ou Paganismo e se recusar a ser sujo, intenso, politicamente correto e pasteurizado. Não há nada de polido no culto dos Deuses Antigos. Bem e Mal não surtem efeito em cláusulas contratuais para acalmar a culpa classe média do Sacerdote ou Bruxo. A contaminação da era do coitadismo deixou a Bruxaria Banguela.

Cada vez que um de nós aceita dar as mãos com um sacerdote cristão em uma bela cerimônia ecumênica, um canino fica solto. Quando assistimos impávidos os ignorantes reduzirem nosso culto a “um estilo de vida”, um molar cai. Quando usamos modelos e estruturas dos cultos abraâmicos para controlar nossos pares, criando Igrejas e um Imprimatur oficioso, a gengiva necrosa.

Na fé em que fui criado, não se troca liberdade por aceitação. Se você não pode vestir seu pentagrama em público porque é incapaz em lidar com a discriminação, você não baixa a cabeça e aceita que acadêmicos validem sua opção religiosa ou recorre a uma filiação a um grupo que tem mais política e empresa em si que Fé e Magick.

Imaginem a minha alegria em achar este texto em que o autor expande este conceito muito melhor do que eu poderia, neste momento. Claro que discordo quando o autor escatologicamente aponta o presente como a “morte da Wicca”, mas entendo que ele se refira ao vácuo de valores tradicionais. Também o ambientalismo exacerbado me incomoda, mas embora exagerado, o cenário que é pintado não é incorreto.

Em um ponto do texto, o autor exorta a necessidade de se confrontar a Morte:

Confront death, not by pretending that a beautiful Beltane ritual and a blue sky means everything will stay the same. Confront death, not by practicing the magic of ploughmen and wortcunners in your urban apartment believing that it makes you more authentic than any given Wiccan. We need to stop making those closest to us our sworn enemies. The game has changed

Pergunto-me quando a turma do Paganismo Paz e Amor vai entender que os inimigos da Fé existem e não se resumem a discípulos de Bolsonaro, o Feliciano, ou simplesmente a poluição. Enfrentar a morte e entender o pouco tempo que temos em Gaia deveria ser pré-requisito para dedicação, assim como uma postura fora do confortável sofá de internet, seus forums, e a bruxaria faz de conta.

Por uma Bruxaria menos Banguela e mais Suja.

 

Simbologia

Costumo confidenciar aos meus irmãos de coven e à minha sacerdotisa que aquele que não estuda a arte do simbolismo é um semi analfabeto mágicko. Sim, é uma frase um tanto quanto extremada, mas não por isso menos verdadeira. Explico.

Para os imersos em uma realidade mágicka e despertos, é importante ser poliglota. Quando o universo escolhe ser o porta-voz de Antigos Deuses, Formas Pensamento, Elementais, Fadas, Espíritos e etc. é salutar ao menos fazer uma forcinha para entender o que ele fala. E aí que entra a simbologia, que ao mesmo tempo é uma linguagem por si só e um alfabeto. Os sonhos e visões falam através de símbolos. Nossos insights podem ser codificados e arquivados para um futuro de forma eficiente através de um símbolo. Os símbolos agem como guardiões para um intelecto desbalanceado e o excesso de palavras e definições. Com o dominar da linguagem simbólica, cenas corriqueiras vistas na rua podem ser utilizadas como um oráculo.

Aprender símbolos e sua linguagem é fugir de tudo aquilo que é categórico e restritivo. É abraçar algo que mutatis mutandis, possui uma existência plástica, dinâmica, emotiva, e conceitual – um símbolo é algo vivo! Se aprende com um símbolo, não se aprende um símbolo, uma vez que é impossível possuir uma ideia.  Assim como o mapa não é o caminho, o símbolo não é a ideia – e por isso a melhor forma de compreender a simbologia é através da experimentação direta e não  através de analogias.

E quem melhor do que um dos maiores estudiosos do simbolismo para defender seu estudo? Carl Jung diz que

‘For the modern mind, analogies—even when they are analogies with the most unexpected symbolic meanings—are nothing but self-evident absurdities. This worthy judgement does
not, however, in any way alter the fact that such affinities of thought do exist and that they have been playing an important rôle for centuries. Psychology has a duty to recognize these facts; it should leave it to the profane to denigrate them as absurdities or as obscurantism’ .

Aqui fica claro que embora a analogia não seja a melhor ferramenta para o estudo do simbolismo, é um indicativo de uma conexão entre o símbolo e a ideia. O significado simbólico de um fenômeno é uma ponte entre o instrumental e o espiritual; entre o humano e o cósmico; o casual e o causal, sempre apontando para os valores transcendentais.

E quando os símbolos possuem um valor diferente do atribuído historicamente?

Mircea Eliade diz que o símbolo não deve ser entendido como uma anulação da conotação material inerente ao mesmo, mas sim como uma adição de um novo valor a um objeto ou um ato. Desta maneira, é possível e plausível um valor simbólico aparentemente em choque com o significado histórico do símbolo.

Ainda, o símbolo pode ser entendido como um veículo ao mesmo tempo universal e particular: Universal, pois como vimos, transcende a história; e particular porque ele pode e deve ser lido de acordo com os valores e métodos de um determinado período histórico e inserido dentro de um segmento cultural (conforme visto no The Development of Symbolism, DIEL). Lembremos que este veículo foi nosso primeiro professor; nossos ancestrais aprenderam seus primeiros passos do sagrado através do vôo dos pássaros e do desenho das constelações – símbolos, e não livros ou comunidades de Facebook.

O símbolo, como não poderia deixar de ser, possui muitas definições. Para Ananda K. Coomaraswamy, o simbolismo é ‘a arte de pensar através de imagens’, para Diel o símbolo é ‘uma forma de se expressar precisa e cristalizada’. Goethe expande o conceito de símbolo quando diz que  ‘no símbolo, o particular representa o geral, não como um sonho ou uma sombra, mas como uma revelação viva e instantânea do inescrutável’. Poderíamos escrever muito, e não esgotar o conceito de símbolo – assim como podemos usar magick em todos os dias e não arranhar a superfície desta arte e ciência fascinante. No entanto, devemos nos tornar ao menos conversacionais na simbologia, assim ao menos não perdermos uma boa parte da linguagem do universo.

 

Da serpente que expulsou o irlandês

Dia 21 de março é uma data importante para a Tradição Caminheiros de Hybrazil. O Equinócio de Primavera é sempre um momento de planejamento para nós, quando paramos à beira do caminho para consultar as estrelas e as montanhas e ver se estamos na direção correta.

Então, vamos falar de orientação e o que acontece quando se perde a noção de quem somos ou onde estamos.

Tenho visto por anos a fio pagãos celebrando o dia de Patrício – essa piada pronta que só pode nascer da ignorância e aculturação tão cultivada por essas vítimas da Nova Era. Um Pagão comemorar essa data faz tanto sentido quanto um rabino comemorando o holocausto. É burro, é incoerente, é imbecil.

Não batemos palmas para nem celebramos nenhum perseguidor de Pagãos. Não precisamos de uma desculpa social para beber. Sim, gostamos de cerveja boa (não essa lavagem tingida de verde) e por mais que alguns de nós simpatizemos com os Irlandeses (ou japoneses, ou nórdicos, ou Sioux) não somos tão infelizes a ponto de fingirmos ser um estereótipo ruim de outra cultura por uma noite.

Também não somos idiotas para ver a cristandade se apropriar de OUTRA festa nossa a fim de esvaziar as celebrações de equinócio (Ostara, etc.) e acharmos bonito.

Sabemos muito bem quem e onde somos. E se você celebra o dia de Patrício, tenha certeza que não é um dos nossos.

Não me interessa se as cobras que ele expulsou eram Druidas ou não (a propósito, diz-se que as últimas cobras encontradas na Irlanda datam pré-era do gelo). Não me interessa se ele não foi o único responsável por cristianizar a Irlanda. Não me interessa se ele na verdade passou pela Irlanda a fim de expurgar heresias cristãs. Ele era um missionário cristão.

Tão ruim quanto perseguição física é o policiamento ideológico. Os dois são cabrestos colocados por anos a fio pela cristandade àqueles que ousaram pensar e crer de forma diferente. E celebrar um missionário cristão, sob qualquer que seja a desculpa, é algo que qualquer filho dos Deuses Antigos deveria ter vergonha em fazer.

Ainda:

  1. Ele nunca foi irlandês.
  2. A cor dele nunca foi verde.
  3. O trevo não é o símbolo da Irlanda. É o símbolo da “Santíssima” trindade cristã.

PS> Patrício, como missionário, também não devia aprovar excesso de bebida. Parabéns, tanto as serpentes quanto o missionário acham você um idiota por usar esse dia pra fingir-se de irlandês e ter uma desculpa pra encher a cara.

 

Do lar e seus Deuses

“There is no place like home.”
― L. Frank Baum, The Wonderful Wizard of Oz

Sábios eram os Romanos e outros povos da antiguidade que reconheciam que cada lar abriga um Deus. infelizmente de lá pra cá, tanto se perdeu que frequentemente tenho a impressão que esquecemos muitas e muitas vezes o que pensamos que sabemos.

Sou obrigado a garantir aos mais inclinados à literalidade que o Deus de seu lar não irá, provavelmente, acabar com sua última cerveja ou deixar a louça suja na pia. Talvez, de vez em quando, derramar um copo se te esqueceres de oferecer tuas libações ou talvez deixar que pequenas desventuras te lembrem do seu desprazer (Lâmpadas se queimando em excesso e barulhos incovenientes são sempre um sinal).

Isso não quer dizer, no entanto, que ele (ou ela) será totalmente indiferente às realidades do seu lar. Os Deuses se envaidecem das obras de seus protegidos, e não é diferente com os Deuses lares: eles se orgulham de uma casa bem mantida, e em troca, ofertam sua proteção ao lar que também é deles.

Poss quase ouvir nos fundos da sala o muxoxo de bruxas enfeitiçadas pelo canto de sereia daquilo que chamam de feminismo hoje em dia, preparando=se para queimar os panos de pó e aspiradores (porque, convenhamos, uma bruxa queimar uma vassoura é um contrasenso), lembrando que Amélia já era. Pois então: Há uma diferença enorme em prestar-se a este papel para honrar um homem, um igual, e para honrar o lugar que habita.

Como filhos e filhas dos Deuses Antigos, não deveríamos defecar onde dormimos, ou estocar comida azeda, ou sequer deitar-se em meio à sujeira. Mas sempre há o cansaço, a tristeza e a falta de hábito. Estranhos são os companheiros com os quais nos cercamos, mas mais estranho ainda é aperceber-se disto e permanecer no erro.

Se o mundo é nosso altar, e tudo nos é sagrado, porque não nosso lar? É assim que tratamos nossos templos, então? Com que direito podemos reclamar das ovelhas conquistadoras que derrubaram nossos altares e calaram nossos sacerdotes se não nos levantamos nem para tirar o pó das estátuas…?

Honrem seu lar e seu Deus. Honrem seu abrigo e seu local de descanso. Honrem sua proteção, e serão protegidos em troca.

Vontade

Na falta de Vontade, a mais completa coleção de virtudes e talentos de nada vale.

 – Aleister Crowley

O Caminho de dedicação não requer muito daquele que há se iniciar no culto dos Antigos Deuses. Não pede do Caminheiro conhecimentos obscuros da Babilônia ou que saiba as quarenta e duas negativas a serem enunciadas perante a balança de um certo Canis aureus. Não se pede, também, que possua dons mágickos transcedentes ou que seja herdeiro de uma longa tradição de magos atlantes. Não é isto que esperamos daquele que para perante os umbrais desta casa.

Esta casa não se porta como uma espécie de RH divino, analisando curricula dos que aqui batem, a julgar quem ou como devem melhor servir os Antigos Deuses. Somos, na melhor das hipóteses, arautos que buscam transmitir formas e valores em busca de se manter o culto dos Antigos Deuses vivo e vibrante.

No entanto, certas coisas são impossíveis de ignorar naqueles que entram. Enquanto alguns buscam o caminho antigo com a sofreguidão de um infante ao buscar o seio da mãe, outros parecem usar o oásis temporário como pousada, refrescando-se e descansando antes da próxima parada. A quem esta casa se destina? Costumo dizer que a maior prova do caminhar na senda da bruxaria e do culto aos Deuses Antigos são os resultados sobre a própria vida e seus caminhos.

Aos que tem coragem de buscar os caminhos de outrora, quase desaparecidos, esta casa se destina. Aos que possuem a humildade de despir-se de seus antigos caminhos e certezas para que possam vestir-se dos simples trapos que nos irmanam, possuem um lugar à nossa mesa. Aos que compadecem-se das injustiças e das dores e feridas do caminho e ousam olhar para o próximo com amor, estes trabalharão para fazer o bicho-homem algo digno de orgulho novamente. Aos que se portam com garbo e honra perante mercadores e falsos príncipes, chamarei de andarilhos.

A estes esta casa se destina. Àqueles que buscam reduzir este templo a camarilha de comadres e cursinho esotérico, que sejam servidos pelo mundo.

Para ser um caminheiro é preciso Vontade. É não se satisfazer com o que é pedido; é não ser passivo gestão da própria vida. É sorver, a goles largos e com tesão o cálice servido pela andarilha rubra antes que sejamos supreendidos pela sua alva irmã.

É nesta Vontade que esperamos que caminhem.

Coerência Natalina

Muito se fala e se discute entre os Pagãos de como os cristãos “roubaram” o natal, a páscoa e outras tantas festas. Engrossam o coro os ateus, os historiadores, e mais uma pá de gente que não se intimida por séculos de mentiras e lavagem cerebral.

O pior que é tudo verdade, e aquela verdade doída, onde se percebe o quanto de mal os “bem intencionados” podem fazer aos outros. Roubaram algo maior do que as datas e os nomes: tentaram se apropriar do espírito das festas, dos nossos valores, da comunhão alegre que nos permeia e transformar em um aniversário de uma maldita ovelha vampira egrégora parasita que só espalha a vergonha e a ignorância.

O roubo foi tão bem feito que hoje nos olham de maneira estranha quando dizemos  que fomos roubados. Pior ainda quando exprimimos aquela tristeza por tudo que perdemos sem a chance de vivenciar.  E ao nosso redor a síndrome de estocolmo é tão grande que tem gente que por dentro bate palma e pergunta “e daí”.

E daí que roubaram nossos festivais?

E daí que massacraram nossos sacerdotes?

E daí que subverteram tudo que nos era sagrado com sua fé simplória e prêt-à-porter?

Foi tudo à tanto tempo, não é mesmo?

E daí, nós dizemos, que nos recordamos e não tratamos ladrão como amigo nem amigo como ladrão.  Vamos deixar claros, de uma vez por todas: Não somos cristãos.  Que isso reverbere no íntimo de cada caminheiro que hoje se encontra nessa casa. Que se lembrem que a senhora desta casa não acha bonitinho ou adorável as canções de natal, a hipocrisia e a falsidade tão comuns nesta época do ano.

Não precisamos que nos deem permissão para nos cobrirmos de presentes nem para nos fartarmos de rabanadas e outros quitutes. Entendemos que nossos familiares e amigos, ignorantes de suas correntes, mesmo sem serem cristãos nos deem presentes nesta data e que retribuamos em carinho e em amor. Só que temos a obrigação moral, religiosa e mágicka de sermos coerentes.

Quando recebemos o solstício de verão de braços abertos, gratos com o que possuímos, isso engloba o que veio e o que virá. Não é para sermos crianças birrentas discutindo o número, valor ou espécie dos presentes que recebemos ou não.  Sejam vigilantes nas suas promessas, meus queridos: o inimigo espreita por trás de sorrisos e votos inofensivos.

Em amor,

Da Liberdade e do Pensamento

O segredo da felicidade é a liberdade. E o segredo da liberdade é a Coragem – Thucydides (460-404AC)

Desde que comecei a caminhar junto aos Antigos Deuses, tenho percebido que uma das maiores e mais palpáveis recompensas é a liberdade que tem me acompanhado.  Não falo dos grilhões usuais (vergonha, preconceito ou visão dualística) pois tais nunca encontraram guarida em minha vida, desde cedo. Refiro-me a uma idéia, que também é um sentimento: Caminhar livre de pesos desnecessários.

Muito se perde ao se escolher os companheiros menos adequados à sua caminhada: frequentemente, a viagem ao invés de se tornar algo memorável, torna-se um borrão indistinto de aborrecimentos e só se deseja que tudo acabe rápido, como uma consulta de dentista. O curioso é que nestes momentos o tempo confirma sua natureza elástica – segundos tornam-se insuportáveis minutos, e o ser humano faz a única coisa possível nestes momentos: A tudo suporta e coloca sua mente em outro lugar, esperando que tudo passe, e rápido.

Não é isso que acaba acontecendo, com insuportável frequência, à medida que os anos se empilham sobre nossos ombros? A neve sobre os cabelos não acaba, por assim dizer, por anestesiar os sentidos e congelar o audaz espírito que nos acompanha? Tal percepção acaba por tirar de nós a magia do dia a dia, obliterando o caos que é um dom da Senhora dos Dragões, e quando percebemos, os anos acabam passando rápido demais.

Isto é o que chamamos na tradição de Espírito Sonâmbulo: Não se está acordado para o dom do presente, mas também não se está “apagado” a ponto de não se aperceber de que algo falta. O Espírito SABE o que esperar da vida, e como isto ocorrerá; estranhamente, ao invés disto trazer conforto, o que acontece é uma anestesia. O mundo passa a gravitar em torno do “meu” dia, “meus” problemas, “minha” vida. À todo momento nos pré-ocupamos do compromisso seguinte, ou escolhas que poderiam ser diferentes.

É, eu sei, não é o seu caso.

Será?

Você se lembra do seu primeiro pensamento consciente hoje, ao acordar? Da prece que fez antes de deixar o conforto do seu lar? Do gosto ou do cheiro do(a) companheiro(a)? E dos dias anteriores? Do último rito ?

Pois é.

Existem maneiras de despertar um Espírito Sonâmbulo. Nem todas funcionam, mas tenho certeza que certos exemplos possam ao menos inspirar a busca por esse “acordar”.

  1. O poder do “cagaço”. Um Dragão uma vez me disse, entre risadas, que o único poder que poderia mover o homem é o cagaço.  Hei de concordar, uma vez que o grande motivador para que o conforto do sono seja abandonado é o medo. O que te desafia? Qual a sombra, o medo tão avassalador, que faz com que se mova? Encontre um desafio; faça todo dia algo diferente. Dança, Karatê ou aprender a tocar um instrumento, não importa: OUSE.
  2. O poder da janela. – Uma janela é muito mais que um buraco na parede. É uma maneira de observar algo que se esconde por detrás de uma parede. Saia do seu ambiente confortável: Mude o caminho para sua casa, ou para o trabalho. Apenas caminhe por uma rua diferente ou observe o mundo com mais intensidade – assim você voltará a ser parte dele.
  3. O poder do foco. Quando se coloca o foco em algo, ele aumenta. Então porque não colocar em algo que não seja em você, para uma mudança de perspectiva?  Consegue apenas observar, sem embutir em seu foco suas expectativas, seus medos, sonhos e esperanças?

O pensamento é a chave da liberdade, afinal, a jaula está só na sua cabeça.

(inspirado pelo genial artigo da AlicePopkorn)

Escolhendo o Nome

É interessante a relação de identidade que temos com o nosso próprio nome, o chamado nome civil. Podemos ter vários apelidos – alguns carinhosos, outros jocosos, mas geralmente nossa identidade primeira está ligada de maneira quase indelével ao nome de “batismo”. O que, na minha opinião, é no mínimo engraçado, uma vez que ele nos é imposto quando não somos nada exceto uma forma de vida tentando se entender com mecanismos básicos de sobrevivência.

Daí em diante, só piora: somos doutrinados por repetição que somos o Felipe, a Renata, o Márcio… sem termos a maior parte das vezes consciência do peso dos nomes e seu significado. Diversas tradições religiosas e mágickas reconhecem o poder de nomear, ou seja, dar nome a algo ou alguém. Nomear é trazer a totalidade daquilo que está sendo observado em um símbolo ou sigilo que façam sentido ao nomeador e internalizar aquilo em seu microcosmo, tornando factível a interface e manipulação daquilo que antes era algo infinitamente mais complexo.

Sim, manipulação, em todos os sentidos. Se prestarmos atenção em como reagimos a diferentes nuances de voz e entonação quando falam nosso nome, perceberemos que certas respostas emocionais pré-definidas podem ser despertadas e moldar nossa resposta à frase seguinte sem que nos apercebamos do fato.

O que dizer, então, do nome mágicko, ou nome pagão, ou Motto? Porque encontramos vinte mil Morganas, milhares de Darkcrow Merlins e centenas de Lilith Ceridwens? À parte dos fenômenos de massa e da falta de orientação, o nome pagão deve ser um sinal, visível e externo, do caminho interno tomado pelo pagão em sua jornada em busca da própria fé. É bastante comum que ao descobrir a religião dos antigos Deuses, o pagão busque um nome mágicko como forma de ruptura com tudo que viveu até aquele momento: um nome imponente, cheio de mistério e brilho, que o diferencie dos demais.

Mal sabe aquele que trilha os primeiros passos que um nome mágicko possui uma carga muito maior que uma etiqueta ou uma roupa bonita. Ao escolher um mote, aquele padrão definido pelo nome se mescla ao seu caminho pessoal; querendo ou não certas características vão sendo absorvidas e certos eventos vão se repetindo. Daí vem duas regras que consideram básicas ao se escolher um nome mágicko:

Regra #1 : Se é para escolher um novo caminho, escolha algo que vá agregar uma característica ou força que você precisa. Se você é tímido, escolher o nome de “McMudinho  o envergonhado” não vai tornar sua vida especialmente mais fácil, assim como uma médica escolher o nome de Morrigan Macha Hécate Pandora não vai ser muito legal se ela for uma obstetra. O interessante é trazer um pouco do que você precisa (ou acha que precisa), temperado com uma força nova que permita que seu caminho floreça em uma direção diferente.

Regra #2: Se você é LOUCO O SUFICIENTE para trazer para si o nome de um Deus ou Deusa (é como querer encher um dedal com o Oceano), tente ao menos restringir o seu mote a uma face do Deus/Deusa ou uma característica. Isto ajuda a evitar que a associação de seu nome à divindade e sua egrégora acabe por queimar alguns “fusíveis”.

Além da finalidade de se trazer uma força ou característica para a vida do Pagão, o nome mágicko também ajuda a dissociar a vida cotidiana da vida religiosa – e isso não é uma invenção Pagã. Por exemplo, no mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, os monges ao serem sagrados  adotam um nome relacionado às características que desejam emular e para que sua identidade anterior seja abandonada, marcando um renascimento espiritual.

E esse é o foco de se escolher um nome Pagão: mais do que mera vaidade, ele deve representar um renascimento, seja este através de uma iniciação ou de uma epifania. E para uma sociedade tão atrasada como a sociedade brasileira, adotar um nome Pagão também confere uma medida extra de proteção: Um pseudônimo.  Desta maneira, a “persona” do dia a dia, que tem que pagar suas contas e ir na escola dos filhos ganha um certo disfarce para não ser atacada por fundamentalistas ou desajustados.

O nome mágicko também deve falar de sua essência. Diferente do nome civil, que nos é imposto, o nome mágicko é uma conquista, uma veste envergada com honra e galhardia: Parafraseando os antigos Taoistas e seus koans, ele deve ser sua face como era antes de nascer. O nome não deve ser bonito ou poderoso – o nome escolhido deve ser você.

E já que estou falando de nomes, por favor: Evite os títulos pomposos, ainda mais se estes forem seus primeiros passos na senda pagã. Um lorde é um senhor de terras e pessoas, assim como uma lady deve ser ao menos senhora de sua casa. E ter maestria não significa prepotência, arrogância ou ser mandão. Então, em prol de sua própria imagem e da sanidade dos demais companheiros de caminho, evite se intitular, por exemplo, de  Lord Hades Aragorn O Destruidor 418 ou algo do tipo. Isso só mostra sua infantilidade e ignorância.  Títulos são conferidos e reconhecidos, não roubados.

Por fim, certos nomes não são escolhidos – nos são sussurrados pelos Deuses. Pode acontecer, e se for o seu caso, ouse acreditar – você pode se surpreender.