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De Umbra Manus – Da auto-defesa mágicka

Só existem dois enganos que podem ser cometidos no caminho da verdade: Não prosseguir até o final, e Não começá-lo. (Sidarta Gautama)

Costumo dizer que em todo caminho, o primeiro passo é o mais difícil. O regime na segunda feira, a academia após o trabalho, a iniciação na senda religiosa, etc. Uma vez no caminho, existe um certo “momentum” que nos acompanha, como se à medida que caminhássemos na estrada nossa vontade se fortalecesse. Mas antes disto ocorrer, há uma terrível inércia a se vencer, uma preguiça, uma auto sabotagem, independentemente do caminho individual. Isto ocorre não  só por uma questão psicológica, mas também por uma questão mágicka.

Toda mudança na vida começa com uma insatisfação, uma semente, uma idéia que há de propelir a pessoa em direção a um novo caminho – e tal conceito é muitíssimo bem exemplificado no filme “Inception – A origem”. Como no filme, toda mudança se origina de uma pequena fração, uma semente, um átomo que se nutrido por fatores como visualização, Vontade e disciplina pode vir a mudar completamente a vida da pessoa. E como um broto de árvore, essa idéia é mais frágil antes que suas raízes se aprofundem e seu tronco engrosse.

No mundo de Gaia, muitos são os seres que afetamos em nossas vidas, visíveis e invisíveis. Alguns são bastante cooperativos, outros simbióticos, e alguns parasitários. Muitos são seus nomes em diversos caminhos: Encosto, Demônios, Djinns, Sombras, Obsessores, Qlippothicos – forças devolutivas, que nascem para cada força evolutiva manifestada, afinal o universo tende ao equilíbrio. Assim como um tigre faminto não vai se preocupar se o homem desavisado é muçulmano ou umbandista, o mesmo pode ser dito destes seres e seu relacionamento com um Pagão ou um Bruxo.

Claro, poderia ser dito que o Paganismo não comporta esse tipo de visão. Que isso é fruto de um dualismo maniqueísta. Mas, se tudo continuar como da última vez que observei, “o que está abaixo como o que está acima” ainda pode ser empregado nesta análise. Ao observarmos o lugar do homem no mundo, apesar da sua dita primazia na cadeia alimentar, perceberemos que toda a dita primazia depende de fatores externos: O local em que está, a existência de armas, ferramentas, colaboração de outros humanos, etc. Na minha opinião, isso se espelha na realidade mágicka: O reflexo infantil de “não acredito no tigre, logo ele não vai me comer” se alimenta diretamente da presunção humana de tudo perceber e tudo saber, e é tão eficaz ao lidar com estes seres quanto uma toalha de papel molhada para se proteger de garras.

Nesta imensa orbe invisível,  muitos se ressentem dos novos caminhos adotados pelos seres humanos e se manifestam através de sinais característicos, que costumo a associar à o que chamo de “mão sombria”. Mão pois através dela se interage com nosso plano, usando, manipulando, empurrando e golpeando; sombria pois suas ações são quase imperceptíveis aos olhos e ao espírito destreinado.

Para fins didáticos, dividi cada influência com uma correspondência para um dedo, para fácil memorização. E coloco um exemplo, relacionado à realidade Pagã, para facilitar a compreensão.

Digamos que um Pagão decida praticar mais seus ritos e ir à floresta da Tijuca, por exemplo.

  1. O polegar. O dedo que sempre aponta para si próprio. O ego, a vaidade, a hubris são pratos cheio para a influência externa: “ah, não preciso ir a uma floresta, eu já sei o que preciso fazer, isto só está na cabeça, eu posso imaginar bem”. O “eu” é bem menos importante na senda mágicka do que nossos mecanismos de compensação poderiam supor, especialmente para os sacerdotes dos Deuses Antigos. Uma ferramenta não se ressente de ser utilizada, e é isso que um sacerdote é para os seus Deuses.
  2. O indicador. O dedo que usamos para apontar algo ou alguém. A velha dicotomia do eu vs. eles “ah eu não vou pra floresta da Tijuca porque posso cruzar com aquele grupinho xxxx, eles são ridiculos”. Se usássemos 10% do tempo que usamos para observar e julgar aos outros em nós mesmos, o mundo seria um lugar melhor. Só se muda o mundo ao mudar a si próprio, e por isso o homem foi feito de barro, hmmm? Pois é moldável – enfim.
  3. O Médio. O símbolo das posses, do que é material, e não por acidente o de maior destaque na mão. “Não tenho dinheiro pro ônibus, e se tivesse ia gastar um tempo que não tenho – tenho que arrumar a casa, etc”. O material é um meio (“médio”) e não um fim; ele se adequa à Vontade e aos valores do Pagão, e não o contrário. Se seus Deuses não conseguem “te dar uma mãozinha” pras coisas mais simples, tome cuidado: ou eles não querem, ou você não está sendo ouvido claramente.
  4. O Anular. O dedo da aliança, todo o que nos prende aos demais humanos por sentimentos (não necessariamente somente os ditos “bons sentimentos”). “Não posso pois queria ficar com meu namorado”. “Tenho um encontro com a galera”. O caminho dos Antigos Deuses é um caminho de escolhas, nem sempre fáceis. E alguns deles são bastante ciumentos – então deixe bem claro sua disponibilidade e lembre-se, o poder é proporcional ao sacrifício.
  5. O mindinho. Aquele dedo que a grande maioria não sabe muito bem pro que serve, e é pequeno. Nossa sombra, nossas fobias, toda a programação que nos foi empurrado goela abaixo: “Se eu for, vão descobrir que não sei nada. E se eu esquecer o rito? Eu tô gorda, não tenho um athame legal, etc.” Ouse. Confie nos Deuses. Só voa aquele que ousou pular sobre o abismo.

Da próxima vez que você quiser muito iniciar um caminho e encarar obstáculos, olhe bem para sua mão. Veja se através dela não estão impedindo seu caminho, e lembre-se que a maior parte dos opositores corre ao ser visto; afinal, a grande maioria dos homens é cego para o que não é material.