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Da compra de ferramentas

Por estes dias, em uma página do facebook que participo, perguntou-se se havia eficácia em adquirir itens como pós, poções, borrifadores, “feitiços prontos” e “rituais engarrafados”. É uma boa reflexão, que merece uma resposta apropriada.

Um dos maiores dons da bruxaria é a adaptabilidade: se observarmos as práticas folclóricas, a stregheria e as nossas benzedeiras, teremos verdadeiras aulas de magia simpática, onde o praticante se utiliza de diversos objetos cotidianos ritualizados para atingir seus objetivos.

  1. Uma das maiores críticas à aquisição de itens prontos é a ausência da intenção e elo com o usuário final. Se considerarmos que objetos “encantados”por terceiros não possuem a capacidade de afetar terceiros, relegaremos ao manto dos enganadores Agrippa, Crowley, Paracelso e outros tantos. Prefiro não o fazer por motivos óbvios. Então, considerarei como possível o efeito, ainda que limitado à competência do bruxo/mago original.
  2.  A maior parte de nós não possui tempo, conhecimento ou ferramental para criar todos os objetos que utilizamos em nossos ritos (não dispomos de forjas, ou sabemos soprar vidro, ou dispomos de parafina, etc.).
  3. Parece-me uma consequência direta dos pontos anteriores a necessidade da aquisição de objetos para os ritos desejados.
  4. Desta maneira, posições extremistas tanto para um lado quanto outro não me parecem adequadas à realidade da prática da Grande Arte. Nem nos tornaremos quackers para obter eficácia em nossos ritos, como certamente não devemos nos utilizar sempre de itens “prêt-à-porter”. O primeiro nos rouba de tempo para os rituais, elemento essencial para a assunção do fim desejado. O último nos rouba da capacidade de desenvolver criatividade, conexão e a capacidade de imbuir o objeto com sua vontade, roubando do bruxo de uma certa maneira toda a sua potencialidade.
  5. Entre dois ladrões, parece-me sensível desejar não ser roubado. Eis o porquê de não defender nenhum dos extremos.
  6. Uma vez que isto reste claro, ergue-se a pergunta de quando saber para que lado pender. E infelizmente, não há fórmula mágicka para isso (com trocadilho). A experiência há de falar.
  7. No entanto, alguns pontos servem de guia para a escolha: O quanto de confiança se deposita no artesão original; se ele vive do comércio ou se vive da arte; e por fim, se resultados tangíveis são obtidos (o método científico deve ser empregado, à semelhança do ditado “que o sucesso seja a sua prova”.)

 Entendo como possível a eficácia, embora limitada se comparada a instrumentos minimamente preparados pelos bruxos, que se beneficiarão de uma maior sincronia com o praticante, no pior dos mundos – e no melhor ainda o ensinará algo que ele jamais poderia aprender em livros ou lojas.