Aprendendo com Dragões – Parte 2 – Aprendendo a dividir.

No texto anterior, apresentei de maneira breve o que é trabalhar com Dragões sob a ótica da Bruxaria Draconiana. Se você ainda não leu, peço que gaste cinco minutos do seu tempo para se familiarizar com o tema (disponível em https://gaiapaganus.wordpress.com/2016/06/09/aprendendo-com-dragoes-parte-1-introducao/). Sem excessos, a Bruxaria Draconiana é um tema pouco desenvolvido e difere significativamente da Bruxaria Tradicional; trabalhar com Dragões pode ser uma experiência bastante demandante e até traumática para alguns.

Você ainda está aqui conosco? Ótimo.

Costumo dizer que não se “opera” magia. Não se escolhe como um tempero no armário, ou se aprende como uma matéria de escola. Se a magia não transforma e é transformada quando a interface Bruxo – Magia – Mundo é formada, então não é magia: É PNL, é Teatro, é qualquer outra coisa, mas não é Magia. Sabendo-se disso, como se dá o processo de se utilizar (e alguns diriam “ser utilizado pela”) Bruxaria Draconiana?

A Bruxaria Draconiana possui uma característica que a diferencia de todas as outras: Não se faz magia com Dragões, uma vez que são seres de pura magia: a magia ocorre por causa, e através de Dragões.

Vamos refletir por um momento o que isso significa. Diferentemente de outros caminhos em que o Bruxo amealha conhecimento para mudar sua percepção e exercer sua Vontade através de técnicas diversas, na Bruxaria Draconiana o Bruxo trabalha em grupo… com pelo menos um ser mágico ao seu lado, que não compartilha de seu idioma, um corpo físico, ou sequer da psicologia humana. Existem aí diversas barreiras, entre elas a vaidade do Bruxo que às vezes não se encontra pronto para ceder o holofote para outro.

Neste caminho, saber ouvir é essencial. Ouvir não só a terra, os astros, e os espíritos, mas a voz que se manifesta na conexão íntima onde dois cavalgam a mesma montaria, ou na partilha do que há de mais sagrado para ambos. Se o Bruxo é uma lâmina afiada, os punhos que a empunham são os do Dragão que o acompanha. E para não resistir e ao mesmo tempo não perder todas as características que fazem o Bruxo único e valioso, é preciso uma boa dose de fé.

A fé, no final das contas, serve de ponte a ligar dois mundos de escalas muito diferentes, A fé vira a única ponte possível sobre o abismo, a corda lançada de cima, as asas que impulsionam do micro para o macro. Se encontrando no meio, Bruxo e Dragão podem finalmente travar uma conversa e se olhar nos olhos. Neste momento, fica claro que Dragões não se ocupam de sua estabilidade financeira, ou se seu afeto é correspondido. Do que se ocupam Dragões, então?

Dragões se ocupam em moldar aquela alucinação consensual a que chamamos de “realidade”. Guardiões da Magia e dos tesouros da terra, seus caminhos são os das grandes batalhas e das mudanças que afetam mais do que esse pequeno orbe jogado num canto da via láctea. Ao mesmo tempo, seus caminhos se entrelaçam com a humanidade – que hoje pode ser pequena e mesquinha, mas carrega em si a semente que os Dragões carregaram outrora.

A Bruxaria Draconiana opera através da associação de diversos fatores pessoais e transpessoais:  a sintonização da vibração (por falta de melhor palavra) do espírito do Bruxo, da integridade de sua Vontade, de sua capacidade Mágicka, seu treinamento, sua disciplina, sua inteligência e sensibilidade emocional e por fim sua conexão com o Dragão com quem trabalha.

Isso é radicalmente diferente de apenas visualização criativa, magia simpática, ou desejar algo. Para caminhar e aprender com Dragões é necessário ter o coração em dois mundos, e os dois pés bem plantados nos caminhos deste mundo. E aqui encontramos a primeira grande dificuldade deste processo de aprendizado: Possuir ao mesmo tempo todo o idealismo de um sonhador e a grandeza de espírito a fim de atrair um Dragão, e ao mesmo tempo não ser um tolo deslumbrado com moinhos de vento, que possa ser um instrumento útil ao irmão escamoso.

Para trabalhar junto a um Dragão, devemos abandonar toda e qualquer característica de “lobo solitário” que a Bruxaria tenha nos despertado ou aumentado. Querendo ou não, seremos apenas mais uma ferramenta de tantas outras que são utilizadas neste plano, e uma boa ferramenta nunca deve atrapalhar as mãos do artesão. E mesmo que sejamos os únicos a trabalhar com determinado Dragão, embora seja raro, é sabido de Dragões que trabalham em conjunto de tempos em tempos.

Para que o trabalho transcorra em harmonia, é preciso que o humano se torne um pouco mais Dragão, e o Dragão compreenda o coração humano.

Até a próxima!