Aprendendo com Dragões: Parte 1 – Introdução

Há mais ou menos oito anos atrás, fui convidado a palestrar no ESP-RJ. Adoraria dizer que o convite se deu por causa da minha inteligência ou capacidade, mas isso seria uma mentira das grandes. Fui convidado porque era um dedicado disponível no Rio e os elders não dispunham de recursos para se deslocar até aqui no momento.

O assunto era fácil e gostoso: uma breve conversa sobre a Bruxaria Draconiana e nosso culto à Tiamat. Tive a companhia de meus irmãos de dedicação e ao final do bate-papo, fomos cercados por uma série de ouvintes querendo saber mais sobre Bruxaria Draconiana. Eram todos de diferentes caminhos e experiência, e polidamente os encaminhamos a nosso Elder à época. Foi a primeira vez que vi o frisson que o caminho draconiano causa na Bruxaria, e até hoje me questiono de onde vem tanto interesse por um caminho tão exigente.

Meus questionamentos pouco importam diante da vontade de aprender. Talvez, entre tantos, alguns sejam tocados como fomos, e transformem sua vida em algo mais digno dos Antigos Deuses. Quem sabe entre os que buscam os Dragões, alguns corações pesem mais que uma pluma, e verdadeiros laços de irmandade sejam criados. Por esta razão, decidi escrever sobre minha caminhada ao lado de Dragões, os vôos alçados, e as conquistas alcançadas. Sobre as derrotas, perdoem-me, mas esse é um assunto a ser partilhado ao redor do fogo com irmãos.

Os Dragões são famosos pelos mitos criados ao seu redor: Monstros terríveis, de couraça quase invulnerável, garras afiadas e sopro ígneo. Guardiões de tesouros, poderosos em sua magia, mais velhos que continentes inteiros, nobres, e terríveis em sua fúria. Quase todo povo possui uma ou mais lendas sobre os Dragões: Sejam como vilões, mestres, ou até raramente heróis.

Tudo isso é verdade.

Hollywood e um tanto de autores fizeram um bom trabalho em caracterizar essas facetas dos Dragões. O que não é dito, como sempre, se torna mais importante do que aquilo que é. Um dos tesouros guardados pelos Dragões é algo vivo, que cresce e muda, e deve ser nutrido e moldado como uma plantação ou pomar, e que se encontra dentro de cada ser vivente, visível ou invisível. Para este fim, os Dragões, ferramentas dos Deuses Antigos, se aproximam em raras ocasiões de uma curiosa espécie de macaquinhos pelados, fascinada pelos seus paus e pedras, e escolhem alguns dos seus.

Se tiver sorte, esse macaquinho irá conviver com este Dragão por muitos e muitos anos, sendo sua ferramenta no mundo de Gaia – e aprenderá muito com seu mentor. Serão lições destrutivas, belas e poderosas como uma erupção vulcânica; serão reflexões tão profundas quanto o oceano e variadas como as estrelas. A isso, chamamos de Bruxaria Draconiana.

Existem muitos e muitos caminhos na Bruxaria Draconiana, uma vez que um Dragão nunca é igual a outro. A senhora de mil nomes é perfeita e nunca precisa criar algo duas vezes, pois cada uma de suas criaturas faz exatamente aquilo que foi criada para. A mãe dos monstros não cria para a humanidade, mas para as estrelas, os elementos químicos, as subpartículas e coisas que nem temos palavras para. Nossas pequenas mãos e sentidos cuidam daquilo que estão em nossa escala.

Tive irmãos curandeiros, irmãs guerreiras, necromantes, e mestres que oravam com a boca de espíritos longínquos. Em toda a diversidade da criação, há um Dragão. Em cada caminho, se soubermos escutar, há um professor.

O problema maior neste caminho é algo que não pode ser medido por nossos pequenos sentidos: o coração. Dragões escolhem não pela beleza das palavras ou do brilho do intelecto; pouco importa formas belas ou corpos poderosos, ou nosso domínio na magia: Apenas o que nos anima, o que ruge em nosso peito, pode ser ouvido. Uma fábula moderna que conta bem esse olhar é o filme Coração de Dragão, com Sean Connery.

Para aprender com Dragões é necessário deixar as macaquices de lado. Tudo o que nos apegamos em nossa humanidade, como nosso ego, nossos sonhos, relacionamentos, vaidades, orgulhos e dores, devem ser menores que nossa Vontade em sermos instrumentos dos Deuses Antigos e carregar suas mensagens, ser seus braços, olhos, e ouvidos. Isso, meus caros, é testado de maneiras escabrosas e inesperadas.

Aprender com Dragões não é fazer uma meditação guiada e encontrar uma lagartixa gigante. Não é ficar dentro de casa e abrir um círculo com uma estatueta comprada no mundo verde e sentir uma presença forte. Dragões podem caber num dedal ou serem tão vastos quanto um hemisfério – não é o tamanho ou a forma que falam sobre o Dragão, mas sim as suas obras. Dragões levantam os mortos e enfrentam Deuses; fazem-se tão pequenos que podem mudar algumas células e salvar uma vida, e levam esperança quando não há nada além de sombras e pó. Não há nada impossível para um Dragão.

Aprender com eles é tornar-se digno deste esforço. É não deixar nada intocado em sua vida: corpo, mente, espírito, emoções – tudo será examinado, destruído, reconstruído, moldado, e posto à prova. Por este motivo, volto à minha questão inicial: Por que tantas pessoas buscam este caminho?

Talvez porque estejamos mais necessitados de sua cura do que gostaríamos de admitir.

No próximo texto falarei sobre os Deuses Antigos sob a visão Draconiana. Até lá!