Pareidolia – a teoria do ovo quebrado

Um dos fenômenos mais comuns na vivência mágicka é a procura desesperada por validações das experiências intangíveis. Dados não relacionados são encadeados por nossa mente, em constante estado de busca e procura por significados, e de repente o ovo que caiu da geladeira e se espatifou no chão se torna uma comunicação de um espírito.

Essa armadilha clássica tem um nome: é o fenômeno da pareidolia, onde dados aleatórios são reinterpretados pela nossa mente, gerando padrões que não existem. No grupo que faço parte, chamamos a isso de “Teoria do ovo quebrado”, e é mais comum do que se pensa. Aprendemos que devemos ter cuidado e examinar as ocorrências de nossa vida mágicka de forma analítica, de preferência com o auxílio de um relatório escrito de nossos experimentos (como por exemplo um diário mágicko), e não buscar teorias para justificar nossos anseios.

Um vídeo de 5 minutos explica bem o fenômeno da Pareidolia aplicado a imagens se encontra abaixo:

para saber mais

Simbologia

Costumo confidenciar aos meus irmãos de coven e à minha sacerdotisa que aquele que não estuda a arte do simbolismo é um semi analfabeto mágicko. Sim, é uma frase um tanto quanto extremada, mas não por isso menos verdadeira. Explico.

Para os imersos em uma realidade mágicka e despertos, é importante ser poliglota. Quando o universo escolhe ser o porta-voz de Antigos Deuses, Formas Pensamento, Elementais, Fadas, Espíritos e etc. é salutar ao menos fazer uma forcinha para entender o que ele fala. E aí que entra a simbologia, que ao mesmo tempo é uma linguagem por si só e um alfabeto. Os sonhos e visões falam através de símbolos. Nossos insights podem ser codificados e arquivados para um futuro de forma eficiente através de um símbolo. Os símbolos agem como guardiões para um intelecto desbalanceado e o excesso de palavras e definições. Com o dominar da linguagem simbólica, cenas corriqueiras vistas na rua podem ser utilizadas como um oráculo.

Aprender símbolos e sua linguagem é fugir de tudo aquilo que é categórico e restritivo. É abraçar algo que mutatis mutandis, possui uma existência plástica, dinâmica, emotiva, e conceitual – um símbolo é algo vivo! Se aprende com um símbolo, não se aprende um símbolo, uma vez que é impossível possuir uma ideia.  Assim como o mapa não é o caminho, o símbolo não é a ideia – e por isso a melhor forma de compreender a simbologia é através da experimentação direta e não  através de analogias.

E quem melhor do que um dos maiores estudiosos do simbolismo para defender seu estudo? Carl Jung diz que

‘For the modern mind, analogies—even when they are analogies with the most unexpected symbolic meanings—are nothing but self-evident absurdities. This worthy judgement does
not, however, in any way alter the fact that such affinities of thought do exist and that they have been playing an important rôle for centuries. Psychology has a duty to recognize these facts; it should leave it to the profane to denigrate them as absurdities or as obscurantism’ .

Aqui fica claro que embora a analogia não seja a melhor ferramenta para o estudo do simbolismo, é um indicativo de uma conexão entre o símbolo e a ideia. O significado simbólico de um fenômeno é uma ponte entre o instrumental e o espiritual; entre o humano e o cósmico; o casual e o causal, sempre apontando para os valores transcendentais.

E quando os símbolos possuem um valor diferente do atribuído historicamente?

Mircea Eliade diz que o símbolo não deve ser entendido como uma anulação da conotação material inerente ao mesmo, mas sim como uma adição de um novo valor a um objeto ou um ato. Desta maneira, é possível e plausível um valor simbólico aparentemente em choque com o significado histórico do símbolo.

Ainda, o símbolo pode ser entendido como um veículo ao mesmo tempo universal e particular: Universal, pois como vimos, transcende a história; e particular porque ele pode e deve ser lido de acordo com os valores e métodos de um determinado período histórico e inserido dentro de um segmento cultural (conforme visto no The Development of Symbolism, DIEL). Lembremos que este veículo foi nosso primeiro professor; nossos ancestrais aprenderam seus primeiros passos do sagrado através do vôo dos pássaros e do desenho das constelações – símbolos, e não livros ou comunidades de Facebook.

O símbolo, como não poderia deixar de ser, possui muitas definições. Para Ananda K. Coomaraswamy, o simbolismo é ‘a arte de pensar através de imagens’, para Diel o símbolo é ‘uma forma de se expressar precisa e cristalizada’. Goethe expande o conceito de símbolo quando diz que  ‘no símbolo, o particular representa o geral, não como um sonho ou uma sombra, mas como uma revelação viva e instantânea do inescrutável’. Poderíamos escrever muito, e não esgotar o conceito de símbolo – assim como podemos usar magick em todos os dias e não arranhar a superfície desta arte e ciência fascinante. No entanto, devemos nos tornar ao menos conversacionais na simbologia, assim ao menos não perdermos uma boa parte da linguagem do universo.

 

Conceituando Religião

Quando temos tantos assuntos mais populares para abordar, sugerir “religião” como tema inicial evoca cheiro de naftalina e bocejos. É verdade! – E porque, antes de falarmos sobre assuntos infinitamente  mais interessantes como feitiços para proteger a sua casa, as conexões da Deusa Pele e a dança, ou o poder de uma simples benção, temos que passar por essa parte chata de religião?

A resposta simples é: Não tem, mas é interessante. Sem base, a torre não se sustenta, e se você sabe um bom básico, é capaz de construir mais rápido suas noções e vai ter um outro aproveitamento nessa caminhada mágicka que é o Paganismo.  Outra vantagem é que com o entendimento dos conceitos, ou seja, a “mecânica básica” do carro, fica mais fácil perceber um picareta de longe.

Então vamos tirar as teias de aranha e soprar o pó, e tentar achar um conceito que funcione para esse mamute peludo que é a Religião.

A religião, em sua origem etimológica, vem das palavras latinas religio / religionis, e essas palavras podem ter vindo dos verbetes em latim religare ou relegere, significando religar ou reler. Em um primeiro momento a idéia de Religião pode estar ligada à uma releitura ou um religar com um “algo”. E o que seria esse algo?

Alguns diriam Deus, ou a Natureza, ou a Força –  e nenhum deles estaria completamente errado. A religião é uma resposta humana à necessidade de conexão com conceitos e forças mais complexas que o gênero humano. Notem que eu evitei o uso da palavra “maiores”, uma vez que o conceito de tamanho evoca uma relação hierárquica que em via de regra, não se encontra necessariamente presente no conceito de religião, embora seja imensamente popular em religiões Abraâmicas.

Um outro conceito preliminar que precisa ser esclarecido é que o conceito de religião, quando aplicado à casos particulares, inclui sua organização e estrutura (como o clero e os laicos), e que esse papo de “a Religião é bonita mas a igreja é ruim” serve apenas para disfarçar (e mal!) os buracos dogmáticos, visto que a estrutura organizacional de uma fé é um reflexo de sua natureza ideal, e vice versa. Um não existe sem o outro, sendo interdependentes e complementares.

Uma religião precisa de Crenças. Se não tem crenças, não requer fé, e aí sim é uma filosofia de vida, um movimento artístico, qualquer outra coisa. Uma crença é algo baseado em valores não materiais e geralmente não tangíveis ou quantificáveis.

Uma religião geralmente requer uma Cosmogonia. Sem um belo mito  que considere a causa, a natureza ou o propósito do universo, da vida, e todo o resto, qual a graça? Os mitos podem ser simples ou complexos, podem observar em certo grau a origem das espécies e a ciência, mas no final das contas são um mito pela nossa própria incapacidade em elaborar uma explicação convincente para todas estas questões.

E o que seria da Religião sem as suas práticas devocionais e rituais? Estas reafirmam o dogma e o credo, irmanam os membros, e relembram os participantes em maior ou menor nível do(s) mito(s) envolvido(s).

Por fim, a religião possui um códice moral, que pode ser mais ou menos  imperativo, mas toda a religião possui um ethos que é desejado de seus praticantes.

Temos aqui os tijolos componentes da religião. Bom proveito 🙂