Do agradecimento mais básico

Um hábito que busco repetir todas as manhãs ao acordar é agradecer aos Deuses Antigos pelo dom da vida, e me ser permitido mais um dia neste planeta. Para minha surpresa, através de uma mensagem de natal de um amigo, descobri que essa gratidão foi uma constante na vida do fundador do Aikido, arte que pratico há alguns anos e possuo grande admiração.

Um autor que fala muito bem dessa gratidão e seus desdobrares é John Stevens, em seu “A filosofia do Aikido“:

1- Gratidão para com o Universo;
Essa é a gratidão pelo dom da vida, um modo de ser muito precioso e difícil de se alcançar. De acordo com as crenças budistas, a possibilidade de uma alma que transmigra achar uma vida humana é a mesma de uma tartaruga cega no grande oceano, que vem à superfície uma vez a cada cem anos, enfiar sua cabeça num buraco de um tronco de madeira que esteja passando no momento em que ela vier à superfície do mar.
E, mesmo que os deuses tenham maiores chances, sua fácil existência coloca-os num estado de torpor, e somente os seres humanos podem torna-se Buda – precisa-se de um corpo para se sentir a dor de Samsara, praticar o Dharma e experimentar o Nirvana. A Gratidão por se estar vivo é supremamente importante, porque nos dá esperança. Como dizia o Mestre Ueshiba:
Santos e sábios sempre reverenciaram o que há de sagrado no céu, na terra, nas montanhas, rios, árvores e campos. Sempre existiu a consciência das grandes bençãos d natureza. Eles entenderam que é o propósito da vida tornar o mundo continuamente novo, fazer de cada dia um novo dia. Se você entende os princípios do Aikido você também agradecerá por estar vivo, e receberá cada dia como grande alegria.
 
Quando você reverencia o Universo, ele o reverencia de volta.
Quando você chama pelo nome de Deus, ele ecoa dentro de você.
(grifo meu)

 

Por isso o Caminheiro, antes de se preocupar em compreender a face visível do Universo, deve aprender a sentir gratidão pelos semelhantes através das sandálias da compaixão. Para que possa falar com a voz dos Deuses, deve saber escutar e compreender a própria voz.

 Um escritor índio Assinibon descreveu desta maneira o ritual de gratidão particular de seu avô:
Ele nunca deixou de agradecer de manhã cedo ao sol nascente.
Ele chamava o Sol de Olho do grande Espírito. Ao meio-dia, ele parava por alguns segundos para agradecer e ser abençoado. Quando o Sol se punha, ele o observava em reverência até ele desaparecer.

Tal rito, que guarda uma semelhança interessante  com o  Liber CC – Resh vel Helios thelêmico, e é também semelhante ao ritual que utilizamos durante o dia para saudar o portador da luz, permite ao Caminheiro comungar com uma fonte inesgotável de energia, além de ser um excelente auxílio no desenvolvimento da disciplina.

2 – Gratidão para com nossos ancestrais e predecessores;

 Isso significa ser grato para com as matriarcas e os patriarcas do nosso clã [família] particular, e para com todos os grandes líderes, professores, inovadores, artistas e exploradores que vieram antes de nós e criaram a cultura humana. Mesmo se nossos pais foram contra ou obstruírem nossos caminhos em nossa busca, ainda assim nós devemos agradecê-los pela dádiva do nosso corpo físico.

E isto também é a chama vermelha que habita cada altar de cada Caminheiro de Hy Brazil. Cada um de nós nasceu de um ato de amor, e só por isso devemos ser gratos aos que trilharam os caminhos antes de nós.

3 – Gratidão para com o próximo;

 Não podemos viver sem a ajuda de outras pessoas. Pessoas que constroem casas, cidades e estradas; pessoas que fazem as coisas funcionarem ; pessoas que cultivam e preparam a nossa comida; pessoas que pagam nossos salários; pessoas que amam, criam e nos apóiam ; pessoas com quem brincamos e treinamos. Mestre Ueshiba disse uma vez aos seus alunos:
Na verdade – eu não tenho alunos – vocês são meus amigos, e eu aprendo com vocês. Devido ao seu treinamento vigoroso, eu cheguei até onde me encontro hoje. Serei sempre grato pelos seus esforços e cooperação. Por definição, Aikido significa cooperar com todos, cooperando com os deuses e deusas de cada religião.

Para aqueles que caminham conosco, não é necessário entrar em detalhes sobre a frase de O-Sensei. Para aqueles que caminham o bom caminho, mas não caminham conosco, fala de fraternidade e humildade no caminho religioso, algo que grande parte dos Pagãos esquece.

4 – Gratidão para com as plantas e animais que sacrificam sua vidas por nós.
Nós existimos às custas de outros serem, no reino vegetal e animal, e devemos ser gratos por cada bocado de comida que comemos.
Em tempos passados, os índios norte-americanos caçadores nunca se esqueciam de agradecer aos animais que generosamente se deixavam matar.
Eles [os índios] se referiam às suas presas como ”amigos”, e se dirigiam a elas respeitosamente.

O preço da Vida é morte. Para sustentar cada chance, desperdiçada ou não, destruímos as possibilidades de uma planta ou animal. Por isso, a inação é o pior dos passos, e um imenso desrespeito para com aqueles que foram sacrificados por mais um dia.

Gratidão é um antídoto poderosos contra o ressentimento que sentimos em relação aos outros e pelo mau temperamento que possuímos por guardarmos rancor. (Buda definiu uma pessoa fraca como ”alguém que não é grato e que, em sua própria mente, não tem noção de tudo de bom que lhe é proporcionado”). Pessoas agradecidas evitam a autopiedade e relutam em reclamar sobre o tamanho de seu fardo na vida. Outro aspecto da gratidão é o respeito.

Em especial, gostaria de chamar a atenção para a força da gratidão contra o ciúme, a mesquinhez, a infantilidade tão comum em nossos dias, que acorrenta homens e mulheres maduras em corações adolescentes.

Você já agradeceu aos seus deuses por hoje?