Das prioridades

As ações expressam as prioridades – Mohandas Gandhi

Quão fácil nesta época é abrir a boca e prometer. Prometer com a facilidade de beber um café ou comer um pão com manteiga. Prometer, sem se perder um segundo para se avaliar a própria capacidade em cumprir o dito. Talvez Maquiavel se divertisse com o triunfo de sua doutrina, que é tão bem expressa ao se dizer que “a promessa é a necessidade do passado e deve ser quebrada perante a necessidade do presente”.

A palavra erodida e eivada de veneno é incompatível com os homens e mulheres que, sendo instrumentos dos Deuses, emprestam seus pés, mãos, coração, boca e espírito para que sua obra seja feita. Especialmente quando tal palavra é voltada a compromissos feitos com os próprios Deuses.

Não porque tais Deuses espelhem a bipolaridade mesquinha e ciumenta tão comum às deidades semíticas – os Deuses não se incomodam com a humanice praticada por seres humanos – mas quem se fere e adoece, neste caso, são os próprios homens e mulheres.

O senso de prioridade, já diz o nome, é tudo aquilo que se coloca em primeiro lugar. E não existem “vários primeiros lugares” – o valor é absoluto.

Não há de se julgar aqui, nunca, o valor que cada caminheiro dá ao percorrer do caminho. É tolice sem tamanho deitar-se sobre o subjetivo e o imaterial e querer sopesar tais valores como quem mensura um quilo de arroz. No entanto, deve-se lembrar que embora cada caminheiro tenha seu passo e seu tempo, o apreciar do caminho e a alegria de chegar ao final, ele deva sempre colocar o caminho em primeiro lugar.

E não é com mentiras, covardia, ou preguiça que se caminha.

Da Liberdade e do Pensamento

O segredo da felicidade é a liberdade. E o segredo da liberdade é a Coragem – Thucydides (460-404AC)

Desde que comecei a caminhar junto aos Antigos Deuses, tenho percebido que uma das maiores e mais palpáveis recompensas é a liberdade que tem me acompanhado.  Não falo dos grilhões usuais (vergonha, preconceito ou visão dualística) pois tais nunca encontraram guarida em minha vida, desde cedo. Refiro-me a uma idéia, que também é um sentimento: Caminhar livre de pesos desnecessários.

Muito se perde ao se escolher os companheiros menos adequados à sua caminhada: frequentemente, a viagem ao invés de se tornar algo memorável, torna-se um borrão indistinto de aborrecimentos e só se deseja que tudo acabe rápido, como uma consulta de dentista. O curioso é que nestes momentos o tempo confirma sua natureza elástica – segundos tornam-se insuportáveis minutos, e o ser humano faz a única coisa possível nestes momentos: A tudo suporta e coloca sua mente em outro lugar, esperando que tudo passe, e rápido.

Não é isso que acaba acontecendo, com insuportável frequência, à medida que os anos se empilham sobre nossos ombros? A neve sobre os cabelos não acaba, por assim dizer, por anestesiar os sentidos e congelar o audaz espírito que nos acompanha? Tal percepção acaba por tirar de nós a magia do dia a dia, obliterando o caos que é um dom da Senhora dos Dragões, e quando percebemos, os anos acabam passando rápido demais.

Isto é o que chamamos na tradição de Espírito Sonâmbulo: Não se está acordado para o dom do presente, mas também não se está “apagado” a ponto de não se aperceber de que algo falta. O Espírito SABE o que esperar da vida, e como isto ocorrerá; estranhamente, ao invés disto trazer conforto, o que acontece é uma anestesia. O mundo passa a gravitar em torno do “meu” dia, “meus” problemas, “minha” vida. À todo momento nos pré-ocupamos do compromisso seguinte, ou escolhas que poderiam ser diferentes.

É, eu sei, não é o seu caso.

Será?

Você se lembra do seu primeiro pensamento consciente hoje, ao acordar? Da prece que fez antes de deixar o conforto do seu lar? Do gosto ou do cheiro do(a) companheiro(a)? E dos dias anteriores? Do último rito ?

Pois é.

Existem maneiras de despertar um Espírito Sonâmbulo. Nem todas funcionam, mas tenho certeza que certos exemplos possam ao menos inspirar a busca por esse “acordar”.

  1. O poder do “cagaço”. Um Dragão uma vez me disse, entre risadas, que o único poder que poderia mover o homem é o cagaço.  Hei de concordar, uma vez que o grande motivador para que o conforto do sono seja abandonado é o medo. O que te desafia? Qual a sombra, o medo tão avassalador, que faz com que se mova? Encontre um desafio; faça todo dia algo diferente. Dança, Karatê ou aprender a tocar um instrumento, não importa: OUSE.
  2. O poder da janela. – Uma janela é muito mais que um buraco na parede. É uma maneira de observar algo que se esconde por detrás de uma parede. Saia do seu ambiente confortável: Mude o caminho para sua casa, ou para o trabalho. Apenas caminhe por uma rua diferente ou observe o mundo com mais intensidade – assim você voltará a ser parte dele.
  3. O poder do foco. Quando se coloca o foco em algo, ele aumenta. Então porque não colocar em algo que não seja em você, para uma mudança de perspectiva?  Consegue apenas observar, sem embutir em seu foco suas expectativas, seus medos, sonhos e esperanças?

O pensamento é a chave da liberdade, afinal, a jaula está só na sua cabeça.

(inspirado pelo genial artigo da AlicePopkorn)