Do prazer do silêncio

O silêncio é um amigo que nunca trai.

Confúcio

Como sou grato ao silêncio que tenho desfrutado, desde a última encruzilhada!

Ultimamente, o silêncio tem sido um companheiro valioso. Ao vestir o manto do pária e do indesejado, tenho recebido dos meus mais queridos companheiros o dom de não ouvir suas vozes nem compartilhar de suas maravilhosas presenças. Como minha Deusa tem sido boa comigo!

No silêncio, encontramos cada vez menos utilidade aos signos e sinais; a palavra, como bom vinho, é guardada no fundo de nosso íntimo, para fermentar e ser consumida em ocasião apropriada. A linguagem do espírito desvela-se a cada passo, e que caminho maravilhoso tem sido.

O silêncio é um elogio. Revela mais do que as pretensas palavras poderiam, onde aqueles que mais falavam de outros líderes revelam sua pequenez ao utilizar-se dos exatos mesmos métodos e éditos para fazer progredir sua agenda política, e aprazendo-se de sua própria esperteza (*rs*) tolhem a liberdade alheia, esta gigantesca ameaça para aqueles que não possuem a própria.

O silêncio é uma porta. Tudo que é represado e forçado busca o equilíbrio e a harmonia, esta é a Lei do mundo. A represa, a porta do grito de rebeldia, antecede a revolução prometeana dos portadores da (própria) luz, que se recusam a mendigar o fogo alheio – e cerram a visão daquele que se ao menos ouvisse, poderia entender a discórdia como o primeiro vigia ao ataque externo.

O silêncio é um abraço. Ao virar as costas e voltar à caminhada, a estrada e o horizonte se abraçam, e o ciúme dos que encontram nos grilhões sua mochila se torna um voto de boa viagem, quando se possui a coragem para ousar.

O silêncio é o uivo invisível, o punho cerrado travestido de mão aberta, a espada morta, aquilo que não é esperado pelo inimigo. Os tolos os desperdiçam como pedras a serem arremessadas aos inimigos, os vaidosos o vestem como a roupa mais bela que possuem, e os caminhantes o tem como companheiro.

Ao silêncio!

Porque o Paganismo?

Tive a idéia de começar esta série de pequenos textos sobre bruxaria e paganismo como um exercício para me habituar a escrever.  Não tenho a menor pretensão de que se tornem uma fonte de conhecimento ou que provoquem grandes reflexões; creio que para este fim existam inúmeros autores mais qualificados.

As idéias aqui apresentadas refletem apenas meu entendimento e opiniões sobre o tema: não se tratam da política oficial de nenhuma instituição ou tradição que faça, ou tenha feito parte. Uma vez esclarecido tal fato, vamos ao ponto.

Passei por diversas religiões, por diversos motivos. Algumas como auto-iniciado, outras como iniciado (considerando o termo “iniciado” como aquele que é trazido aos mistérios religiosos através de rito(s) ministrado(s) por outrem), ouvinte ou simplesmente curioso. Foge ao objetivo deste texto fazer um rol dos caminhos passados, servindo ao ego ou dando uma errônea impressão de que este ou aquele caminho sejam “errados”. Mas pode acreditar quando digo que passei por estradas suficientes para algumas vidas.

Aí perguntam-me o que encontrei no paganismo para que nele me detivesse. Refletindo sobre esta pergunta, penso que falar sobre o que amo em minha escolha religiosa pode servir para esclarecer uma série de dúvidas comuns sobre o tema. Vamos lá:

Liberdade: O fato de não ser uma religião codificada e sistematizada há milhares de anos confere uma liberdade ao sacerdote/religioso ímpar, permitindo uma dose de experimentalidade e liberdade raramente encontrada nas religiões ocidentais. Sendo a liberdade um valor altamente prezado por mim, nada mais natural do que colocá-la em primeiro lugar.

Igualdade: Diferente de grande parte das religiões judaico-cristãs, no paganismo a mulher é considerada como igual e correspondente ao homem, tendo todos os direitos e deveres, sem justificativas religiosas para ser relegada ao papel de cidadã de segunda classe. Claro que estou ciente da contaminação de tradições pagãs por movimentos sociais feministas, mas não é nesta faceta que me detenho.

Responsabilidade: A exclusão de uma recompensa ou punição póstuma fazem com que o foco da religião se desloque necessariamente para o “agora”. A metáfora da teia e da roda colocam o homem como responsável pelo que é feito do mundo e de seus semelhantes, sem desculpas, sem justificativas. Ou você faz o que é necessário ou paga o preço, sem meio termo.

Ausência de Maniqueísmo: Sem essa de bem e mal perfeitos e apartados. Não estamos equipados para sequer conceber esses extremos, muito menos reconhecê-los. A percepção da escala de cinzas ajuda a compreender o mundo sem a visão infantil do papai ou mamãe que tudo sabe e protege seus bebezinhos das agruras do mundo fora-de-casa.

Escola de Mistérios: Assumir que existem vários caminhos para a evolução, e colocar o ritmo e as chaves nas mãos do buscador é reconhecer a capacidade e a maturidade do buscador. Se eu gostasse de pastor, teria encarnado como ovelha.

Magic(k): Sem receitas de bolo. Usar o método da ciência e a meta da religião é abrir mão da arrogância  que grita a plenos pulmões que só o que é mensurado é verdadeiro. Aliás, questionar o adjetivo “verdadeiro” já ganha o meu voto.

Deuses: Emprestar faces e personalidades à pluralidade infinita do universo facilita nosso relacionamento com eles. Mesmo que tudo isso seja um grande teatro, é um teatro que me cativa e me traz uma paz de espírito que nunca experimentei em quanquer religião monoteísta.

Amor: Amar é compreender. E estar inserido, sem supremacia, na biosfera e saber o seu papel facilita compreender e ser compreendido. O perfeito amor e a perfeita confiança não é no humano à sua frente – é na mão dos Deuses que o trouxe até ali.

Fé: A Fé é algo construído dia a dia, que não depende de provas ou negociações. É um relacionamento íntimo com o universo, e as forças que o regem. É confiar nele e nunca ter que pedir desculpas.

Fraternidade: Onde todos são irmãos aos olhos da criação e todos podem ser sacerdotes se assim o desejarem, não há divisões exceto aquelas que os homens carregam consigo. Se alguma estrutura pode fazer nascer a fraternidade entre os homens, para mim é esta.

Estes são alguns dos motivos que me fizeram escolher minha religião. E vocês, quais foram os motivos que os levou à sua escolha?

Da importância da dedicação.

O termo dedicação, na bruxaria brasileira, costuma ser  sinônimo do processo de admissão de um bruxo em uma tradição de bruxaria, onde o mesmo irá conhecer melhor a tradição escolhida, e por sua vez esta irá avaliar o candidato em busca de valores e características semelhantes aos da casa. É um momento único e frágil, que acaba sendo tão importante que geralmente “colore” toda a vida mágica do bruxo.

Conheço bruxos que tiveram uma dedicação extremamente fácil, e não perduraram no caminho da bruxaria. Conheço bruxos que passaram por algo semelhante à uma inquisição, e acabaram por se tornar cruéis. Não existe uma fórmula “correta”para a dedicação: Como todo processo iniciático, tem que ser moldado pela realidade única do dedicado, interagindo com os valores e rituais da Tradição escolhida. Esta sinergia, esta alquimia, não é uma receita de bolo – é uma arte.

Alguns ingressam nas tradições vindos de outros caminhos, ou depois de uma prática como solitários. Outros, tem neste caminho seu primeiro contato com a Bruxaria. De uma maneira ou de outra, este contato se torna o abrir de uma porta, um desvelar de consciência para aqueles buscam uma maior compreensão dos caminhos dos deuses Antigos.

Há um antigo ditado que diz: “onde há medo, há poder”. Caminhando por esta linha, podemos dizer que onde há curiosidade, também há poder. Afinal, a magia opera através de vontade e necessidade: Um dedicado é uma folha em branco, uma caixa trancada, um universo em gênese que busca o seu preenchimento com a vida, o universo e tudo o mais. Poucas necessidades no mundo de Gaia são mais imperativas que o impulso evolucionário, e como o que há acima, há abaixo.

Uma tradição atenciosa não há de ver o dedicado como um estagiário, ou um calouro. O processo de dedicação é, de certa maneira, comparável ao ato de se abrir uma porta: A tradição oferece a chave, mas quem destranca a porta é o dedicado. Quem descobre, que mesmo após isso, não consegue abrir a porta e ao retraçar seus passos se lembra, com um sorriso feliz, que simplesmente esqueceu de dar um empurrãozinho para abrir a porta, é o Dedicado.

Que esta analogia nunca se perca: O passar dos umbrais é um simbolismo muito mais rico do que aparente ser. Para entrar na vida mágica, de acordo com os valores que pretende abraçar, o Dedicado não pode ficar no vão da porta. Uma vez comprometido com o processo de dedicação, ou adentra sua nova vida ou volta. Não se pode ser um sacerdote apenas quando se convém – ou ficando na porta você irá impedir todo tipo de visita dos Deuses.

Dedicar é um processo semelhante à jardinagem: O jardineiro dedicador deve cuidar para que o dedicado desabroche, sem deixar que o processo deixe de incluir o solo, o adubo, água pelas manhãs e à noite, e a ocasional poda – mesmo que a planta faça cara de nojo para o esterco, tema a tesoura e fique revoltada com o banho frio. Como dizia Siddharta, nem tão tenso nem tão solto.

Não é errôneo dizer que a dedicação ensina, também, ao dedicador. Acredito que todo aquele que já foi responsável, nem que apenas uma vez, pela iniciação de outrém há de relembrar o frio na espinha que sentiu ao se descobrir responsável, mesmo que parcial e temporariamente, pelo desenvolvimento religioso de outro ser humano – sem que se possa colocar a mão no volante e dizer “é por ali!”.

Dedicar é ensinar a voar, em compaixão e severidade. Estar a mais tempo no caminho dos Deuses Antigos não nos dá mais direitos, e sim mais deveres: Temos a obrigação de ser generosos, compreensivos, e antes de mais nada pacientes – afinal, se nossos ancestrais e mestres na bruxaria não o tivessem sido, hoje poderíamos estar sob uma orientação religiosa que talvez não nos completasse tanto.